Archive for the 'Portugal' Category

09
Abr
09

Uma opinião sobre o país ou um país sem opinião

É sempre complicada a tarefa de tecer considerações sobre alguma coisa ou alguém. Ainda por cima num país que só começou a valorizar esta nobre arte cívica há pouco mais de 30 anos. São como areias movediças que nos vão sugando lentamente à medida que escrevemos, que arriscamos, que pensamos. Porque obriga-nos a ser coerentes, justos e isentos. Porque estamos mais expostos ao erro. Porque não lhe podemos virar a cara. Juntem à receita a aversão endógena que as corporações, sindicatos e os poderosos deste país têm por este luxo. Os portugueses não lidam bem com a crítica ou simplesmente com as clivagens de opinião. Não gostam dela, não a valorizam. Chegam ao ponto de a obliterar num estado de direito. Mas, pergunto-me, porque razão isto acontece? Será falta de chá? Tenho uma teoria para isso. O português não preza a liberdade de expressão porque prefere ser dono da razão a contribuir para a discussão pública. São alérgicos ao confronto de ideias e esmagam com presunção e grosseria qualquer argumentário desviante. Uma escola que provém de séculos de ausência de responsabilidade social, de iniciativa individual e do persistente mendigar ao estado. Uma história triste com raízes no Estado Novo. Para quê estar a contribuir com migalhas quando podemos estar junto da família das patacas. Porque se submetem muitos homens livres e “independentes” (rica palavra que se inventou) a esta maçada do contraditório quando se podem juntar aos autómatos atraídos pelo magnetismo do pensamento único. Na verdade, é muito mais fácil abstermo-nos de questionar, de verberar por melhores condições a diferentes níveis quando quem manda recomenda silêncio a quem deve obedecer. Quando os patronos do regime utilizam estratégias de atemorização e fazem de órgãos de comunicação social alvo em congressos. Foi isso que fizeram Hitler e Estaline. É isso que fazem Hugo Chávez e José Eduardo dos Santos. Esta evidência vai-se reflectindo nos mais variados espaços da opinião pública: das tribunas e jornais até às mais insignificantes caixas de comentários blogosféricos. Não admira que José Saramago tenha apelado para uma maior educação para a tolerância. Ela escasseia e vai se esfumando. Talvez, quando eu acordar num país onde um primeiro-ministro não se menospreze por uma metáfora com a Cicciolina em plena crise ideológica, social e financeira, talvez eu aí mude de ideias.

Conto-vos uma pequena história. Um cronista da nossa praça resolveu manifestar a sua solidariedade por um conhecido deputado da nação que foi envolvido num caso de escândalo sexual e posteriormente absolvido por um tribunal de todas as acusações que lhe foram feitas. Crendo (apesar de todas as suspeições e críticas) na soberania do poder judicial deste país, o caso não daria pano para mangas, pensei eu. Pois bem, esse dito post e a dignidade do seu autor foram arrasadas pelas acusações mais obscenas e grosseiras de que me lembro, por gente que insiste em fazer justiça pelas próprias mãos. Pelo meio resolvi mandar a minha estocada e fui envolvido no remoinho de insultos pelos mesmos selvagens. Resultado: o blogger decidiu encerrar a caixa de comentários (como não poderia deixar de ser) para salvaguardar a decência da casa. Tudo isto se passou aqui. Façam a interpretação que quiserem.

P.S: Desde já vos aviso, não serei tão irredutível como o União de Facto mas decidi não aceitar comentários dessa natureza daqui para a frente. Depois não se queixem de censura.

P.S.2: Termino com a publicação do texto que anda nas bocas do mundo. João Miguel Tavares, colunista do DN escreveu isto e arcou com as consequências. Descubram se a imagem apresentada é assim tão diferente da realidade.

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31
Maio
08

Entre um horizonte e um pixel.

Uma das razões pela qual a obra do Eça é intemporal.

23
Maio
08

Ainda se o “p” fosse realmente embora.

Glosa para José Pacheco Pereira

são sentimentos humanos,
eu na alma hei-de pôr luto:
o abrupto hoje faz anos,
não pode ficar “abruto”!

não deve viver-se à míngua,
neste nosso dia-a-dia,
de prezar a ortografia
que bem calha à nossa língua.
se lhe dão facadas, vingo-a,
passo logo a fazer planos,
eriçado por tais danos,
de lavrar o meu protesto,
e se assim me manifesto
são sentimentos humanos.

chamo então especialistas,
eminentes professores,
os colegas escritores
e também vários linguistas,
leio livros e revistas,
questiono, leio, escuto,
e aprendendo assim refuto
coisa que é tão aberrante
que se acaso for àvante
eu na alma hei-de pôr luto.

grafias facultativas
em matérias tão sisudas
como as consoantes mudas
levam ao caos, às derivas,
às asneiras permissivas
e aos babélicos enganos.
porém fiquemos ufanos
pela data que hoje passa.
pois não sabiam? tem graça…
o abrupto hoje faz anos…

se lhe tirassem o p,
vigorosa consoante
do seu título, bastante
mal faziam, já se vê.
e percebe-se porquê
sem se gastar um minuto:
se do p ficar enxuto,
vão-se a força e a coragem
abruptamente da imagem:
não pode ficar “abruto”!

by Vasco Graça Moura

24
Mar
08

Será mesmo ?

Preparam-se para encarar um “Portugal” que não veêm em jornais, blogues, nem nos mais pessimistas comentários. Esta é uma visão realista, de sucesso, de um país sem mediatismo nem reconhecimento. Admito que na primeira vez que o li, senti-me desconfortável tal era o distanciamento com o país apreendido que nos esbanjam pela casa adentro. Afogado por este “Portugalinho” falhado que serve para alimentar o ego de muita gente e vender jornais. Afinal, depois de ler isto, o caro leitor concluirá que na maioria dos casos só nos deixam ver aquilo que nos desanima e nos envergonha – o Portugal na lama. Porque esta mentalidade autofágica e mutiladora, adicta de crenças e opiniões acéfalas é o reflexo da lavagem cerebral que não nos deixa enxergar «o caminho» e «a missão».
Convosco fica o Portugal de Nicolau Santos, director-adjunto do EXPRESSO:

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17
Mar
08

Défice democrático!?! Onde?

  99,7%…

…é a percentagem pela qual Alberto João Jardim foi eleito presidente da Comissão Política Regional do PSD-Madeira. Imagino o que terão feito ao militante 0,3% – salvo se for abstenção, é claro. Já lá dizia o outro, que a Madeira não é uma autocracia. Por estes números, é um unanimismo.  

16
Mar
08

Sintomático do dever de reformar.

tpc.jpg

( clique na foto para ampliar)

Este é um caso vulgar, por muito que nos custe admitir. E não poderia vir em altura mais propícia. Coloco-o de forma propositada não só pelo cariz humorístico como pelo paradigmatismo de uma reforma da educação que tem de ser levada para a frente custe o que custar. Ao revés de minudências truculentas e establishments arcaizantes e conservadores que não fazem nada mais do que atrasar o progresso estrutural de um país que passou as últimas décadas a olhar a “Europa” a quilómetros de distância.

Para que daqui a alguns anos alguém tenha a decência e a compostura de não dar uma resposta idêntica a um docente escolar. Para que a figura do pai e de mãe não se substitua à do professor e para que essa mesma figura paterna tenha a prudência de confiar o seu filho a um lugar onde se aprende e se é incitado a aprender. 

Porque quer queiramos quer não, toda esta encenação da correpondência escolar só resulta e ganha forma pelo “eduquês” salazarento que alastrou pelo portugal rural do século XX. Onde subsistia uma classe letrada aristocrática e endinheirada e uma pequena burguesia num mar plebe de gente que via a ordenha e o campo como futuro de vida. Onde a escola e o alfabeto eram “luxos de ricos” além de irrelevantes e proibitivos numa ditadura “fascistóide” e lúgubre. E é por isso (e não só) que vivemos num regime democrático – para mudar.  

12
Mar
08

Portugal, uma interpretação social.

No âmbito de uma disciplina da universidade que tratava do reconhecimento da cultura e diáspora portuguesa, foi-me pedido uma breve análise e resumo de uma obra que explorasse este característico universo que é a cultura portuguesa.

Optei por um desafio arriscado que me tirou algumas horas de sono mas que valeu bem a pena pela substância e pertinência retidas no ensaio de Luís Cunha: “Identidade da Nação; Encenação e Narrativa”. 

Aqui fica por minhas palavras o resumo da obra num enfoque sintáctico, semântico e discursivo.

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