10
Mar
09

and the oscar goes to…

É impressão minha ou a academia de Hollywood está a ficar cada vez mais previsível a cada ano que passa. Em verdade vos digo meus irmãos é mesmo só impressão minha. Os Óscares sempre foram um barómetro excessivo de loobying e critérios mais ou menos duvidosos. Critérios estes que se regem por uma concertação de bom gosto dos indicadores dos Globos de Ouro e dos BAFTA. Salvo este aspecto, poderemos dizer que aí entra a espontaneidade dos arautos de Los Angeles. Senão, que dizer do fenómeno de massas Slumdog Millionaire e do excêntrico Danny Boyle que arrumaram a questão num clima de exotismo descartável, no Kodac Theater. Vamos por partes. O filme é engraçado e bastante razoável, com uma produção e direcção plausíveis. Um conto de fadas em tempos de crise, apologista de causas que subjazem num conjunto de estórias que poderiam ser escritas por um qualquer argumentista da Disney. Mas esse estado de graça de um filme por demais sobrevalorizado, acaba aí. Já não alinho nas acusações de desonestidade intelectual e de pós-colonialismo cinematográfico que serviram como raciocínio para reprovações ao nível do tratamento discriminatório e de abuso de imagem da miscigenação da Índia. Esses foram os mesmos que apelidaram de “fascista” o Tropa de Elite e de obsceno o Blindness. E nessa ladaínha eu já não caio. Não que seja preciso relembrar que existe para aí muito boa gente que tem uma certa dificuldade em encarar a crueza dos “Mundos” que não conhecem. Milk era a escolha mais acertada. Uma pedrada no charco de um dos maiores cineastas norte-americanos vivos. Mais uma vez Gus Van Sant impressiona não apenas pela biopic em si mas pelo compromisso “faustiano” de uma verdade dinâmica que é a rémora desta longa-metragem. Por outras palavras o realizador pega num guião polémico e actual e transforma-o numa narrativa escorreita e indomável. A criação que foge ao controlo do criador. Muito poucos o conseguiram fazer: Stanley Kubrick, David Lynch, Bertolucci. E que dizer de Sean Penn? Resumir o seu trabalho a brilhante é redutor. Penn tem aquela capacidade que eu só vejo num Daniel Day Lewis – não por acaso dois dos actores mais galardoados dos Óscares – de se deixar confundir indelevelmente com a personagem e de por momentos confundir-nos se aquela personagem existe mesmo ou se é uma construção ficcionada. É como se houvesse um pedacinho do actor ou da sua dimensão empírica em cada caracterização que faz. Seja como o condenado à morte Matthew Poncelet em “Dead Man Walking” ou como o ex-presidiário Jimmy Markum em “Mystic River” é irreconhecível e impermeável no engenho da sua caracterização. Um descendente artístico de Al Pacino. Josh Brolin tem outro desempenho brilhante, porém teve de levar com um trabalho de uma vida por parte do malogrado Heath Ledger. Óscar de melhor actor secundário indiscutível, uma mise en scène completamente descontrolada. Jack Nickolson ainda deve estar a pensar como é que ele conseguiu. Contudo não posso deixar passar em branco outra representação arrepiante que fez “Frost/Nixon” girar em seu torno. Frank Langella apesar da exigência da personagem e dos preceitos e fisionomia específicas do ex-presidente norte-americano faz o dito “papelão”. Um cuidado especial pelo pormenor, uma honestidade acima de qualquer dúvida na incorporação do lúgubre e enigmático Richard Nixon, uma expressividade esmagadora, um transe silencioso. Uma interpretação que faz salivar o seu colega Michael Sheen (de esforço?) e que apresenta Nixon como uma figura histórica apetecível e interessante no seu todo. O que é que lhe podemos pedir mais?
De resto: Kate Winslet, magistral; Penélope Cruz, a armada espanhola volta a atacar; Mickey Rourke… bem, Mickey is my brother and he rises again!


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