23
Maio
08

O papel do musical e sua história.

Desde a inevitável Grécia Antiga, berço da cultura e do teatro, que se desenvolve esta espécime de interpretação onde os artistas e cenas faziam correlações entre o teatro e a música. Esta arte híbrida exigia ao executante tanto de interpretação dramática como de melodia e a harmonia vocais.
O próprio termo orquestra significava o espaço entre a cena e o público nos anfiteatros gregos, onde os treinos e preparação eram feitos pelos coristas, responsáveis pela condução da narrativa.
Mas o género músico/teatral nasceu, de facto em Florença no século XVI, que de uma maneira formal e rígida conciliava esta fusão entre voz e movimento.


A Ópera o grande género musical, da Cultura Europeia Renascentista que era composta por diversas estruturas musicais, das quais faziam parte a ária, o coro, a apoteose ou a sonata, dita os primeiros parâmetros do que seria a linguagem do musical-espectáculo.
As suas temáticas são basicamente relativas aos clássicos greco-romanos (que no século XIX evoluiu para a temática medieval e popular, com Puccini e Verdi) com os Italianos a dominarem a linguagem, a esquematização e as componentes Operísticas.
Em contraste com a “Opera Seria”, reagem, paradoxalmente, um conjunto de movimentos artísticos que encarnavam a realidade popular do Século XVIII e a sua simplicidade e comicidade caricaturando-a e acompanhando a Revolução Industrial e as tendências anti-classicistas, que emergiam.
As Zarzuelas Espanholas, as Singspielen Alemãs abriram caminho a uma das maiores obras vindo revolucionar o meio, classificada como Operetta e profundamente criticada pelas elites mais castas e tradicionais da época: a “Ópera dos mendigos”, de John Gay.
Esta “ópera-bufo”, como lhe chamavam, afirmou-se como um sucesso estrondoso no meio burguês – contra todas as expectativas – caracterizando estratificadamente a Inglaterra reformada. Pretendia parodiar as Óperas Italianas e satirizar o elitismo vigente, instalando-se pela força popular. Londres e nova Iorque foram uma ponte a este nível para a consolidação do projecto. Com efeito, foram estas duas cidades as grandes impulsionadoras do género, com salas como a West End ou as da Broadway Nova Iorquina.
Reforçaram o prestígio das Óperas populares, até hoje, numa evolução que coincidiu com a do musical contemporâneo.
Algo que foi materializado pela fórmula de William Gilbert e Arthur Sullivan em 1870 e que consistia na junção de música, letras e enredo contrariando o dilema de interromper a acção sempre que esta era surpreendida pelo fundo sonoro. Assim, estes pioneiros transportaram indirectamente a sua essência para os Teatros de Revista, Vaudevilles e musicais contemporâneos.
No cinema a história foi outra. Nas suas adaptações teatrais a Sétima Arte sempre se sustentou pela máxima mercantilista e massificada. Mesmo sem as técnicas sonoras da altura, surge em 1898, “ O Dançarino mexicano”, o primeiro de todos, mesmo com todas as limitações conhecidas. Já em 1927 – um ano muito importante para o musical-espectáculo – aparece a primeira trilha sonora gravada e sincronizada: “O Cantor de jazz” que conta a história de um pretendente a cantor que sofre de preconceito por ser branco num mundo Afro-americano de Jazz. No mesmo ano, surgia a primeira narrativa musical que conformava o guião à acção contínua do espectáculo, amarrando intrinsecamente as letras à trama e inovando nas temáticas abordadas (conflito racial, alcoolismo, vício em jogo, e tudo sem final-feliz), denominado “Show Boat”.
Daí para a frente, com os esboços testados e laureados, os produtores começam a apostar neste formato já que em apenas três anos o número de filmes produzidos ultrapassava uma centena. Com o visível intuito de construir narrativas sobre música, com o papel acessório a recair nas composições populares que apenas completavam o espectáculo.
Ou seja, em primeira instância, é uma apropriação cultural por ela própria. Um movimento cultural que se acultura. Em 1930, surge o “Rio Rita” uma apresentação filmada de um sucesso musical da Broadway e que antecipou um velho modelo, de sucesso diga-se, da Indústria Cultural: obras literárias são adaptadas para peças; peças para musicais de palco; musicais para filmes. Nasce nesse momento o cinema musical-espectáculo.
Da génese do movimento até à sua coroação precisamos de esperar cerca de 15 anos, com o início do pós-II guerra mundial culminando na década de 60. Esse período destacou-se como clímax, a “Era de Ouro do Musical” com produções tão famosas como “Singing in the rain”, “ West Side Story” ou “ My Fair Lady”.
Com o esgotamento desta fórmula nos finais do século XX, começam a aparecer as primeiras alternativas ao padrão inicial de fazer o musical.
Referência a Bob Fosse coreógrafo e director de “Cabaret” e “Chicago” que separa pela sua metodologia a música e coreografia do campo diegético e acção principal do filme.
Apenas concebe o show e a dança nos palcos apropriados e não vulgarmente em focos determinantes das peças.
Após estes primeiros sinais de dissidência, passa-se a valorizar muito mais as montagens contemporâneas das produções teatrais, tocando-se muitas vezes em tabus e reclamando não só o papel de entretenimento mas também o papel crítico e de denúncia.
A massificação do musical/pop surge com a Ópera rock” Tommy” dos The Who, o compêndio de obras de terror Série B (“A pequena loja de horrores”, “The Rocky Horror Picture Show), ou mesmo com “Jesus Christ Superstar” de Lloyd Webber ou Moulin Rouge. Em Português, tínhamos a “Ópera do malandro” de Chico Buarque.
Além de sinais do tempo, são também mudanças de hábito.
A rendição ao peso e pose intemperados, à produção luxuosa, às técnicas de câmara e de montagem, retribuem a atenção e dinheiro de uma sociedade contemporânea muitas vezes “faz de conta” e que disfarça o “desgosto” pela arte com práticas standard, hábitos de consumo recicláveis e prazeres momentâneos.
A Globalização exige uma nova estética, mais plural, múltipla, cosmopolita. O musical-espectáculo ganha ares de videoclipe. Neste período proliferam as paródias (“Cry Baby”, de John Waters, ou os pastelões-musicais de Mel Brooks) e releituras (“Evita” amplia a narrativa ao extremo tom épico). O musical pós-moderno serve de reforço à multiplicidade, à pastiche, à mistura de referenciais e à valorização da hiperinformação.
Ainda que o fantasma da Ópera seja um bom filme, esta versão de Webber/Schumacher é o paradigma do musical pós-moderno. Que disfarça o rigor da adaptação e o imaculado rumo da história com uma operação de “cosmética” em que participam luzes, rodagens, efeitos, montagem etc.
Não conseguiu grandes nomeações da Academia, mas o facto é que os musicais voltam a encher salas.

 

 

 

 


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