23
Maio
08

A piadola.

Ainda que peque por tardio, o meu comentário assiste-se pela curiosidade que me despontou este artigo do público. Ora vejam o seguinte vídeo:

Uma apresentadora de televisão alemã foi despedida por ter usado uma expressão nazi em directo. Quando um espectador disse que estava com pressa porque tinha de ir trabalhar, Juliane Ziegler, 26 anos, atirou: “Tem que mostrar um pouco mais de entusiasmo… O trabalho liberta!”. A expressão original, Arbeit Macht Frei, estava inscrita à entrada dos campos de concentração nazis. Quando se deu conta do que tinha dito, Ziegler soltou uma gargalhada nervosa, perante o silêncio da sua colega. A jovem apresentadora desculpou-se pouco depois: “Disse uma coisa há pouco sem pensar (…) Este programa é em directo e eu disse uma parvoíce”.


Logo se levantaram as indignadas críticas à postura e suposta ideologia da senhora como do putativo incitamento à violência e terror de certas franjas de extrema-direita.
Refuto ambas. O que está em causa neste triste episódio nem é a orientação política da senhora Ziegler – que não está exposta, é bom que não confundamos um deslize passageiro com um processo de intenções – nem a sua aparente e prosaica inocência. Da mesma forma, não considero essas palavras como panegírico da violência e do terror nazis, antes um breve apanágio referencial do legado histórico alemão que embora seja traumatizante, passou a estar inscrito no seu código genético. E aí, é que o problema ocorre. E nesse problema, poderemos retirar a moral da história.
Porque existe uma simbologia, um pesar universal que não se limita a um minuto de silêncio, entranhando-se na identidade que não se escolhe por sufrágio universal. Já que, mesmo agora e durante largos anos o povo alemão foi feito “bode expiatório” por males passados e crimes hediondos mascarados de ideologia política. Esquecem-se alguns profetas dos bons costumes que o ódio semita alastrou e reforçou-se em outros países e que a sua génese não pertence ao III Reich. Esta cruz que os alemães carregam reflecte-se, infelizmente, em casos como esses, onde existe um tabu, uma ferida bem aberta que para ser cicatrizada precisa de tempo mas acima de tudo de respeito pela memória. Para o bem e para o mal nós somos parte daquilo que os nossos ancestrais já foram com o sofrimento, o orgulho e o respeito que lhe são inerentes. Além disso a citação e o seu humor negro tem um peso e uma relevância públicas que não pode ser ignorada e escamoteada. Porque existe uma responsabilidade, uma homenagem permanente pelos milhões que morreram em solo teutão e que constitui valores morais e éticos irrepreensíveis para qualquer sociedade. Foi um erro de percurso da apresentadora. Um erro que poderia ser evitado, que está sempre sujeito a quem trabalha em formatos de televisão. E por isso mesmo, seria pouco delicado da minha parte, estar a julgar actos irreflectidos ou decisões que são soberanas, neste caso, para cadeia de TV em questão. Soube-se mais tarde que a dita apresentadora tinha sido despedida por justa causa. Nada a dizer, só a lamentar.


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