17
Maio
08

O Antídoto.

“E se fizéssemos um livro e um disco como nunca se fez?” E fizeram. Duas das entidades culturais mais significativas deste país juntaram-se num projecto ímpar reunindo as mais vastas impressões, receios e inspirações que acalentam, sob o signo antídoto. Entre a gélida Escandinávia e o Sul do mediterrâneo os actores deste projecto concentraram esforços e seduzidos por uma forma comum de ver as coisas, produziram uma obra pioneira e primordial. O que é o antídoto na recepção do binómio Moonspell/J. L. Peixoto? Pode ser tudo sem ser nada. Aquela sede primária, vital e obsessiva num cenário de afogamento letal e triunfante. O último e grande suspiro que se liberta de um moribundo. Um grito mudo e visceral, rompendo um silêncio que nos sufoca. A capacidade de escolher a nossa “verdade”. A liberdade de ceder essa “verdade” aos outros.


Para um antídoto subentende-se um veneno. Como o horror subentende a beleza. Sem formas nem limites. A simbiose perfeita de uma ideia, de uma arte, de uma expressão conjugal. O poder pela palavra ou a palavra como forma de poder. Foi o que entendeu José Luís Peixoto ao escrever estes dez breves contos conduzidos pela sintonia dos Moonspell que o faziam sob a forma de estrofes musicais, à volta de um conceito muito próprio e nuclear. Um antídoto para os passivos, os comodistas, os conservadores. Para os velhos do Restelo que te dizem ‘vai por ali’. Uma resposta à inércia e ao vazio. A sensibilidade e o simbolismo. Uma miríade de emoções interpostas num corpo de texto. A morte como salvação de uma vida que nos foge das mãos. Uma solidão angustiante, torpe, libertina… essencial.
É barroco, é abstracto, é gótico e violento. É bizarro chegando mesmo a ser pornográfico. É tudo isto, mas acima de tudo é real e é nosso. É o antídoto que nos corre nas veias. Que não conhecemos. Que contraria o medo em arriscar, que ignora a crítica destrutiva, o anátema inquisitório. O mais nobre serviço que nos prestam ao mitificar a sua Portugalidade. Pois como dizia Teixeira de Pascoaes existe uma ‘arte em ser português’. Que nos ultrapassa, nos absorve e nos escolhe. E que não nos deixa fugir desse destino inviolável.
Quando se conhecem estes artistas, conhece-se tudo o que falam através deles. Os medos que nos controlam, os eclipses que nos provocam, os espíritos nocturnos e lunares que subjazem. Porque é um privilégio ser Português. Porque para cada veneno há sempre um antídoto.


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