10
Maio
08

Multiculturalismo Identitário e os Dilemas Étnicos nos EUA.

Ao confrontarmos os estudos étnicos e plurilinguísticos nos Estados unidos, neste virar de milénio e com as afirmações grupais de minorias cada vez mais audíveis no que à igualdade e reconhecimento epistémico concerne, denotamos um espaço contraditório de múltiplas posições opostas entre dois discursos dominantes e que perseguem os destinos sociais da América, desde Lincoln, passando por Luther King, Kennedy ou mesmo os Hippies, até, se quisermos, à desconfiança actual para com as populações Muçulmanas e do norte de África, facto generalizado pelo terrorismo religioso.

Em causa está não só o reconhecimento mas a devida e honesta inserção de grupos “marginais” ou minoritários, se preferirem nesses tais dois discursos hegemónicos: o tradicional/conservador, defensor da WASP (White-Anglo, Saxon, Protestant) e da colonização disciplinar como padrão cultural enquanto nação multiidentitária; e a segunda simetricamente oposta defende a epistemologia descolonial enquanto sociedade de equidade estatutária que se constrói e progride à força de todos e com consequências para todos, esta defendida pelos nichos étnicos, neoliberais e pelas reivindicações imigrantes.
Este choque programático origina as primeiras greves das minorias discriminadas pelos movimentos de direitos civis, com a ocupação de universidades e fábricas por volta dos anos 70.
Movimentos esses que mais tarde estiveram na criação dos primeiros estudos culturais de Afro-Americanos, Sul-americanos, Asiáticos e Indígenas insurgindo-se contra um pensamento unívoco Ocidental/Anglo-Saxónico e a sua ego-política do conhecimento e investigação.
Esta mudança metodológica serve de base para a desmistificação da superioridade ocidental mas principalmente na confrontação do “outro” como objecto de estudo. Como acessório de trabalho, mero recurso histórico de análise ao pensamento nuclear anglo-saxónico.
Privilegia-se assim uma geopolítica do conhecimento, invertendo o papel do objecto que agora também actua, rompendo-se essa minimalista visão Cartesiana do sujeito/Objecto. O papel do sujeito não-branco aplica-se desta forma a reforçar a produção do seu folclore, mitologia e costume, por metamorfose, numa nova produção de conhecimento rivalizando com o racismo epistémico de visão hegemónica WASP.
Ora, que racismo é este? Simplesmente, uma forma de subalternização invisível, mas profundamente enraizada, do indivíduo não-branco sobre diferentes aspectos e conceitos sociais e científicos, materializados pela interpretação doutrinária de um pensamento ocidental que reduz o papel do “estranho”, de acordo com as suas políticas identitárias.
Isto faz com que estas políticas descredibilizem, a partir do seu locus enunciativo, do seu espaço de poder e de relações comunicantes, a versão integralista da Epistemologia estrangeira.
Esta ego-política do conhecimento reside nas tradições Europeístas que pelo seu espírito aventureiro, colonializador e patriarca das culturas considera os conhecimentos circundantes como inferiores aos seus.
Este racismo imperante desde a Idade média subjaz, por outro lado, da Cosmologia Cristã do seu discurso, numa tradição Greco-romana, assumindo-se como una e reverencial e contrariando o saber não-cristão, diabolizando-o. Consagram-na, como gnose imperial, as revoluções científicas, o renascimento e o iluminismo. Tudo isto sustentado por políticas identitárias que sempre tentaram marcar a diferença.
Frente a estas identity politics hegemónicas que sempre sobrepuseram a beleza, conhecimentos, tradições, espiritualidades e costumes brancos, europeus, cristãos e ocidentais, inferiorizando e subalternizando a beleza, conhecimentos, tradições, espiritualidades e costumes não-europeus, não-cristãos e não-ocidentais, os sujeitos discriminados/inferiorizados por esses discursos hegemónicos desenvolveram as suas próprias identity politics em reacção ao racismo inicial. Esse processo foi necessário como parte de um processo de valorização de si mesmo num mundo racista que os inferioriza e desqualifica de sua humanidade.
Atenção, porém, a certos vectores submergidos desta hostilidade cultural. Para este desequilíbrio da balança contribuem não só a hegemonia egocêntrica-branca, mas as suas homónimas Terceiro-Mundistas que se fundamentalizam nas suas tradições e crenças fazendo pender a balança para o seu lado e reagindo de uma forma subordinada ao fundamentalismo Eurocêntrico.
Há deste modo uma inversão do ego-racial.
E é isto que se discute e inviabiliza. Os alertas são disso prova na América do Sul com o ressurgimento de políticas identitárias que coabitam saudavelmente com várias identidades (mestiços e brancos) ao contrário da fórmula reducionista do imperialismo cultural do Ocidente.
Reconhecer que existe diversidade epistémica – dentro do individual – no Mundo, apresenta um desafio à modernidade /colonialidade existente. Já não é possível esboçar um desenho global como projecto isolado de uma só civilização tendo como base uma solução única. Há que conjugar essas múltiplas nuances de forma a sublevar o eu-cognitivo ao seu estado de nirvana, dentro de uma sociedade heterogenia e orientada pelo logos da tolerância e afirmação.
E a isso se chama Transmodernidade, como projecto inacabado e contínuo, do novo milénio, para culminar a descolonização e proclamar a libertação do indivíduo no meio igualitário que se projecciona.
É neste conjunto de estudos descoloniais e com uma visão transmoderna que os EUA devem orientar as suas políticas multiculturais ao debaterem-se com as suas políticas identitárias neoliberais e pela colonialização disciplinar das ciências ocidentais sobre tais espaços.


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