19
Abr
08

Psicologia Social: bases e fundamentos.

Esta questão é muitas vezes colocada pelas pessoas, visto que, quando confrontadas com esta disciplina, poucas reconhecem realmente, o propósito da sua existência. O mais previsível é o facto de lhes ocorrerem o espectro das ciências sociais como a psicologia e a sociologia e concluírem que a psicologia social (PS) se apresenta como um meio, através do qual se tenta dar resposta às preocupações de ambas. Porém, a realidade é bastante mais complexa, uma vez que a psicologia social não constitui apenas a fronteira entre a psicologia e a sociologia, mas afirma-se, antes de mais, como uma disciplina autónoma. De facto, estas disciplinas partem de perspectivas teóricas distintas, ou seja, existem diferenças a nível da metodologia, cientificidade, e de pressupostos teóricos, dos problemas de investigação e dos paradigmas, construindo, assim, distintos objectos e rumos científicos.

 A sociologia e a psicologia afirmaram-se, no final do século XIX como ciências autónomas, com objectos e métodos específicos, apresentando posições opostas na dimensão individuo/sociedade, cabendo à psicologia o estudo de disposições (motivações, intenções, atitudes, emoções) e à sociologia o estudo das representações sociais. De acordo com os dados fornecidos, a psicologia evidencia a interacção entre determinantes biológicos e culturais, das condutas e funções psicológicas do ser humano enquanto ser que se adapta ao meio. Por outro lado, a sociologia procura realçar as normas que existem na sociedade como padrões decorrentes da vida social que determinam a acção e que são observáveis pelo exercício de relacionamento entre as pessoas. A Psicologia social deve, segundo as regras epistemológicas dos seus progenitores providenciar uma análise aos processos conscientes e ao potencial inato do indivíduo num contexto social de exposição permanente aos agentes condicionantes. Assim, procura articular as regularidades com a acção, tentando perceber como a estrutura condiciona a acção e como é que a acção produz a estrutura. De modo sucinto Silva e Pinto refere que os psicólogos centram a sua atenção nas estruturas psicológicas gerais das condutas e os sociólogos vêem as estruturas como condicionadas pelas dinâmicas de grupo e pelas organizações sociais.

Verifica-se, assim, um fosso acentuado entre estas duas disciplinas pois, a psicologia dá ênfase à dimensão individual e a sociologia à dimensão social.
Porém, a psicologia social rompe com a oposição entre o indivíduo e a sociedade, enquanto objectos dicotómicos que se autoexcluem, procurando analisar as relações entre indivíduos (interacções), as relações entre categorias ou grupos sociais (relações intergrupais) e as relações entre o simbólico e a cognição (representações sociais). Assim, apresenta como objecto de estudo os indivíduos em contexto, sendo que o método é efectuado, tendo em conta quatro níveis de análise: nível intra-individual (o individuo); o nível inter-individual e situacional (interacções entre os indivíduos ou contexto); o nível posicional (posição que o indivíduo ocupa na rede das relações sociais); e o nível ideológico (crenças, valores e normas colectivas). A afirmação como disciplina autónoma foi desencadeada pela existência de estudos que sustentavam um novo domínio do conhecimento: o da interferência dos outros no comportamento dos indivíduos. Pepitone (1981) considera que a inauguração formal da psicologia social é feita com a publicação, em 1908, The Social Psychology pelo sociólogo Ross e de An Introduction to Social Psychology pelo psicólogo McDougall. Contudo, para Ross a psicologia social procura explicar a uniformidade das crenças, dos sentimentos e das acções que é desencadeada pela interacção dos seres humanos, enquanto que McDougall considera que o social está inscrito na natureza biológica do indivíduo.
Esta dupla referência do social e do psicológico continua ao longo da história da psicologia social, constituindo o objecto de análise dos próximos artigos, tendo em conta, quer a psicologia social americana, que possui uma orientação mais psicológica, quer a psicologia social europeia, que se tem interessado mais pelos fenómenos colectivos.

 


2 Responses to “Psicologia Social: bases e fundamentos.”


  1. 1 Marta Cuntim
    Maio 9, 2008 às 1:24 am

    Olá!!!😀
    O texto está muito bem escrito, contudo pode suscitar algumas dúvidas no seio daqueles que não estão tão à-vontade nesta área, ou seja, não é só a PS que encara o indivíduo como um todo. Todas as vertentes da Psicologia olham para o ser humano como um ser biopsicosociocultural, isto é, o indivíduo não é encarado de forma isolada, pois sabemos que ele é influenciado por tudo quanto o rodeia. Todavia, estas perspectivas psicológicas são apresentadas com diferentes nomes de acordo com a área na qual se inserem, não deixando de defender os mesmos princípios teóricos.
    Além disso, hoje em dia, já não se encara a Psicologia e a Sociologia de forma isolada, é cada vez mais importante avaliar o contexto no qual o sujeito se insere e desta forma os “padrões decorrentes da vida social que determinam a acção e que são observáveis pelo exercício de relacionamento entre as pessoas” adquirem um papel cada vez mais importante para que se possa compreender o porquê de determinados comportamentos e patologias por parte dos diferentes sujeitos.
    Em suma, a autonomia que se nota nestas ciências não deve ser encarada como algo dogmático, porque, por exemplo, um comportamento pode deixar de ser encarado como desviante se tivermos em conta o contexto em que ele foi produzido. Hoje em dia deparamo-nos com sociedades cada vez mais multi-culturais, multi-raciais e multi-religiosas, e para podermos avaliar os vários comportamentos temos que ter em linha de conta o ambiente que rodeia os sujeitos, pois só desta forma é que conseguimos deixar de os rotular por causa das suas atitudes.

  2. 2 Ricardo
    Fevereiro 23, 2009 às 2:31 am

    É verdade “um comportamento pode deixar de ser encarado como desviante se tivermos em conta o contexto em que ele foi produzido. Hoje em dia deparamo-nos com sociedades cada vez mais multi-culturais, multi-raciais e multi-religiosas, e para podermos avaliar os vários comportamentos temos que ter em linha de conta o ambiente que rodeia os sujeitos, pois só desta forma é que conseguimos deixar de os rotular por causa das suas atitudes”.


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