16
Mar
08

Fantasma da Ópera: impacto social e deriva estética.

Após múltiplas versões, adaptações e espoliações à obra visionária e clássica do escritor/jornalista Francês Gaston Leroux é importante verificar o que de substancial e perdurante ficou de tantas interpretações e leituras.
Que o cinema e as artes de espectáculo se tornaram voláteis pelo mediatismo do consumo moderno e a memória colectiva desgastada pelas sobredoses industriais de produtos resultantes, é um facto.
Mas esses entraves, paradoxalmente, tornam ainda mais extensível a proeminência do objecto criado entre a miscelânea da quantidade e da qualidade – quando a há.

Falando mais a caso da obra em questão, o fantasma da Ópera revelou-se brilhante, heterogéneo e raríssimo pois é um paradigma do argumento cinematográfico e incontrolável ao próprio criador, apenas preso por conceitos Mundanos e moldáveis ao Homem.
Conceitos esses, que partem de um pressuposto definido entre o período romântico do princípio do século XX (Christine Daee) e a abertura a temas tabu como o terror, o sexo e o obsceno (Fantasma) e que evoluem consoante as interpretações geracionais, no espaço e no tempo e a título individual.
Na senda dos clássicos de terror dos “loucos anos 20”, Lon Chaney encarna a personagem principal, imortalizando-a naquela que seria a imagem por excelência até à inovação do musical.
Mas comecemos pelo livro, O Fantasma da Ópera é considerado por muitos uma novela gótica por combinar romance, horror, ficção, mistério e tragédia. Uma fórmula bem desenvolvida pelo mestre do cinema-mudo, no filme de 1925, quer a nível gestual como cinético – as bases de então.
Em 1974, o consagrado Brian de Palma faz uma adaptação do guião para o seu “Fantasma do Paraíso” numa aproximação ao plano musical-espectáculo, aqui discutido.
Mas é em 1986, que esta história muda o seu rumo e começa a gozar do seu potencial social e histórico. As arestas artísticas das personagens, a sequência formal dos actos, a cenografia tudo muda pelas mãos de Andrew Lloyd Webber que entende a sua contextualização no musical moderno, que arrisca ao humanizar as personagens, ao situar o enredo de uma forma lógica e pragmática mas principalmente colocando-a nos escaparates da arte popular, do espectáculo massivo, à luz das tendências modernas.
Arriscar desta forma, compreendia toda uma construção base de um conjunto de aspectos técnicos, logísticos e arbitrariamente de uma reinterpretação do conto, das rábulas, da influência de cada peça/personagem na composição final.
Lloyd Webber aposta e ganha. Nunca um musical gozou de tanto sucesso nas decanas salas da West End Londrina. Ao reconhecer a potência em bruto do romance que tinha algo de musical sinergético por Natureza conciliando com o carisma do todo da obra (como prova o filme ao prescindir de grandes estrelas) o compositor consegue atingir o ponto convergente entre a sua música e a componente diegética da obra.
Já na adaptação para o filme de 2004, com direcção do conhecido Joel Schumacher a passagem foi tranquila, fidedigna ainda que recheada de mais pompa e circunstância com toques de requinte variado. Ou seja, uma mega produção na verdadeira acepção da palavra.
Mas o que faz deste filme, diferente e genuíno em contraste com os seus homónimos e congéneres do século XX?
Pois bem, com um argumento bastante esclarecido e orientações lineares no percurso das personagens as preocupações recaíram mais sobre o detalhe, a produção, o factor persuasivo e de atracção. Por outras palavras, a “roupagem” pós-moderna e global que vai de encontro às prioridades e costumes cinematográficos de hoje.
A preservação e refinação do conteúdo num modelo ou forma, conformativo com as exigências da rapidez e desfasamento do real. O papel de entreter a audiência com um produto que respeitando os cânones base da sua criação consiga aliciar, contagiar, transportar o espectador para o ecrã e converter aquele mundo de fantasia num estímulo aos sentidos e ao inconsciente.
Por detrás de tudo isto está um complexo e estruturado jogo de luzes, câmaras e movimentos.
Neste capítulo, aponto como cruciais três aspectos – que irei desenvolver – ao dissecar o filme e comparando-o com os mais antigos:

• Luzes;
• Personagens;
• Ópera.

” Toda esta história é sobre luz e sombra: é uma história de amor sombrio e obcecado, na Paris de 1870. Tem que ser opulento, voluptuoso e belo. É essa parte que é cinematográfica num musical”, refere o realizador. A componente cromática e/ou luminosa está presente em quase todas as cenas do filme já que demarcam personagens, cenários e acção. Os palcos e escadarias da ópera, reluzentes e cheios de cor, vida e glamour opõem-se ao ambiente cerrado, agreste e escuro das catacumbas como refúgio do fantasma que simboliza solidão, mistério, terror clássico e misantropia.
Todos os diálogos ou feitos revestem-se de conspiração, medo e drama num paralelismo com a Ópera e os cenários. Boa parte da acção do filme é subterrânea já que é aí, nas “trevas” do fantasma, que se desenrola a confissão macabra do seu modo de vida, o seu rosto deformado se destapa e atinge-se o pináculo melotrágico do final. O realizador não esconde que gosta desta escala épica.
No exterior, à superfície, a acção é performativa do luxo, reverência e vivacidade do espectáculo, do encontro entre Christine e Raoul, das ambições da Prima Donna e dos regentes da Ópera.
Mesmo quando o candeeiro desaba sobre a plateia, o cenário fecha-se de luz e deixa-se dominar pelo fogo e por tonalidades pesadas.
Schumacher usou isso frequentemente para enfatizar a intersecção de cenas e consequente separação entre elas.
Quanto às personagens, o critério foi outro já que rompia com as tradições do passado e revelava outra tónica marcante dos novos tempos: o culto da imagem.
O realizador optou por rejuvenescer as personagens escolhendo para os papéis, actores novos e de feições generosas. Assim reforçou os elementos de personalidade de cada um, incutindo referências mais inocentes e frágeis à bela Christine, maior vitalidade e força ao Fantasma e sentido protector e de sedução a Raoul. Todas personagens centrais e todas jovens. Com o carisma e as características aconselháveis para uma projecção distintiva e contextual, no tempo e o espaço.
Já a Ópera assume-se por si só, o cerne da construção cinematográfica.
O cenário por excelência é a Ópera e o filme não funciona sem a sua capa de salvação. Afinal o que perfaz todo o sentido de espectáculo é o seu crepúsculo musical. Confunde-se quase com uma personagem. Pelas portas, espelhos e estátuas a sua influência faz-se sentir. A sua pose rivaliza com as mais sonantes personagens, afirmando-se na recriação de algo já existente.
Nos efeitos câmara e nas coreografias a cumplicidade entre actor e cenário é uma realidade e, mais do que isso, uma regra.
O pormenor é aqui retratado minuciosamente o que o separa mais uma vez das outras adaptações. Apenas tem lugar num cemitério (elemento gótico do filme) a única sequência de imagens fora da Ópera que é responsável pelas mais belas imagens do filme, como prova o rio subterrâneo que se incorpora nas suas infindáveis catacumbas.

O filme respeita as suas clássicas tradições góticas mas funde, com elas, elementos modernos de filmagem e produção. E é aí que reside o grande valor simbólico sob o filme e social como cinema. Por isso, entenda-se desde já, tudo isto é justificável pelos avatares do tempo, das tendências cosmopolitas do cinema como manifestação social e pelo próprio reconhecimento da obra que com este filme adquire a sua intemporalidade e perenidade ficcional.


4 Responses to “Fantasma da Ópera: impacto social e deriva estética.”


  1. Abril 13, 2009 às 11:52 pm

    eu queria saber os personagens Principaiis … e Onde que acontece essa Historia (LOCA) sabe? por favor me ajude beijos

  2. Abril 14, 2009 às 12:00 am

    Será que vocês podem me enviar pelo meu email as respostas:
    Quais os personagens Principais do Filme O FANTASMA DA ÒPERA :
    e Em que Local Acontece A Históriia:
    E quais são Os antagonistas Destas História:
    Me respomdam POr favor ? OBRIGADA

  3. Abril 14, 2009 às 12:32 am

    Carol, se estiveres a falar da última versão do Joel Schumacher (porque há várias) os personagens principais são Gerard Butler (o fantasma), Emmy Rossum (Christine Daaé) e Patrick Wilson (Raoul). A cena passa-se em Paris e em especial na Ópera de Paris. Para mais informação consulta-me ou lê o texto acima. Acho que ficarás esclarecida.

  4. Abril 17, 2009 às 9:16 pm

    o google devia ser processado por enviar pessoas q andam a fazer investigação para este blogue!


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