12
Mar
08

Portugal, uma interpretação social.

No âmbito de uma disciplina da universidade que tratava do reconhecimento da cultura e diáspora portuguesa, foi-me pedido uma breve análise e resumo de uma obra que explorasse este característico universo que é a cultura portuguesa.

Optei por um desafio arriscado que me tirou algumas horas de sono mas que valeu bem a pena pela substância e pertinência retidas no ensaio de Luís Cunha: “Identidade da Nação; Encenação e Narrativa”. 

Aqui fica por minhas palavras o resumo da obra num enfoque sintáctico, semântico e discursivo.

«Ao encetar este estudo sobre as diferentes faces da identidade nacional e atendendo aos diferentes riscos e dúvidas que se colocam no nosso tempo, tive o cuidado de impor como coluna central a procura, não da verdade mas de um ensaio sustentável ainda que imparcial.
 Com isto, recordo com precaução as diferentes etapas da Portugalidade Histórica fruto de uma incessável curiosidade ao se esbaterem teses e considerações – como de seguida iremos tratar – e ao invocarmos o legado histórico do Iluminismo, Renascimento e outros movimentos culturais postulando aquilo que desempenhará papel central neste estudo: O fenómeno da temporalidade e a sua ligação com a problemática da identidade portuguesa.
 Depois de alguns encontros e afastamentos por este tema, me debruçarei novamente, mercê de uma obra que recentemente trouxe para a opinião pública o cerne da questão Lusitana. Falo da obra de José Gil, “Portugal, hoje: O medo de Existir”, que motivou a construção deste texto e que de testo sustentado e argumentado me pareceu rebuscado e ligeiramente mediático. Ao gozar de um assinalável sucesso editorial e mediático, o texto recorre a uma certa linhagem referencial e discursiva de obras antecedentes, suas respostas e questões.
 Ao suceder no centenário espólio de textos escritos sobre nós, Gil vem pregar sobre conceitos claros de acepção e de fácil explicação, com a distinta ajuda jornalística aludindo ao medo e inveja como características Portuguesas e ao teorizar sobre a não-inscrição factual da nossa história.
 Em simultâneo, nesse clube de pensadores, conflui na unidade essencialista ainda que com os contrastes derivacionais da sua obra e das outras que iremos focalizar. Proponho por isso uma análise a um conjunto de quatro textos escolhidos de forma arbitrária e consciente do tempo e da circunstância em que forma feitos.
Ao optar pela singularidade e afastamento entre si, apresentou-se um paralelismo tangível pela linearidade, abstracção e dimensão no tratamento do objecto «Portugal», constituindo amiúde, um labirinto onde se cruzam e fundem ideias jogando com o auto-referencial e isolando a novidade dos seus “laboratórios”.
Ao compreender a fundação, refundação, projecção e declínio do País, Teixeira de Pascoaes, Jorge dias, Eduardo Lourenço e José Gil trilham diferentes caminhos onde se tenderá a privilegiar a semelhança tendo em conta os efeitos retóricos e analíticos das características estruturais de cada texto.
 Entre outros, para fugir ao beco do relativismo e do essencialismo, recorri a três instrumentos de análise de cada um dos seus textos que remexerão nos argumentos e motivos dos mesmos. Serão eles, o efeito do deslocamento ao enfatizar as relações com o tempo histórico, o efeito da transmutação na passagem da sociedade real e diversa para a ideal e unívoca. Por fim, chamarei ao efeito máscara a naturalização cultural no discurso premente de cada um com a nação.

Comecemos com a “Arte de ser Português” de Teixeira de Pascoaes.

Com a realidade vexatória e traumatizante em que o Portugal Oitocentista pós-ultimatum se encontrava, veio também a retórica romântica, saudosista e sebastianista do idealismo de Pascoaes. A ideia principal do autor seria o reencontro e reflexão interior para posterior sublevação heróica da Raça Portuguesa. Para isto se concretizar, seria aplicado um Renascimento figurativo português, substancialmente diferente do convencional e de cariz popular. Entre nós funcionaria como movimento dinâmico e colectivo. Por outro lado, a sociedade portuguesa na sua realização artística comungaria essa mesma singularidade colectiva na ruralidade da turba com a Paisagem exterior como qualidade rácica, garantindo-lhe genuinidade e perpetuação.
 Como efeito de deslocamento Pascoaes considera a elisão do tempo já que como raça emergente de dois ramos étnicos (o semita e o Ariano) constitui o seu integralismo Patriótico e a já referida elevação a um estado superior. Passado, presente e futuro fundem-se, portanto, nesse estado etéreo.
 O segundo efeito de que falámos, o da transmutação é a subalternização da sociedade real, a das elites culturais e urbanas sob o tradicionalismo rural. A matriz cultural que manterá latente as virtudes do Português e que converterá os defeitos que assume e refere na obra “As Farpas” de Eça e Ramalho Ortigão num padrão articulado e polarizado de positivo e negativo na alma, eternizando-a.
 Agora como se operacionaliza esse devir histórico? Na passagem ao metafísico tomando o substancial da Natureza portuguesa em cultura perene. E isso será o resultado da máscara intermediária do natural para o cultural. A cultura se congregará e irremediavelmente se entregará à complexa matéria espiritual entre a herança étnica e o meio físico, para suportar o verdadeiro interessa individual da Nação.
Ou seja, uma nação no seu apogeu, una e libertária em contraste do interesse do sujeito individual que se deverá entregar ao mosaico cultural/natural a que corresponde a nossa história, folclore, língua etc.

Já no âmbito d’Os elementos fundamentais da cultura Portuguesa do antropólogo vivido na época de repressão ditatorial, Jorge Dias as diferenças com o texto anterior são bem patentes ainda que se estimule a linha confluente, entre ambos.
Apresentando uma imagem conceptual da País, fora de portas (EUA) a um público bem mais instruído e isento emocional e racionalmente esta obra constitui uma das primeiras tentativas da Antropologia Lusa para pensar e teorizar a fundo a nossa cultura e origens. Concebidas em pano de fundo do Estado Novo e na ressaca do grande projecto corporativo da geração de 70, este ensaio procura discutir a matriz cultural como a conhecemos, suas modelações e autenticidade. Para ele o principal obstáculo seria homogeneizar a cultura superior, dita nacional, pelas diferentes culturas locais muito mais ambientalistas e tradicionais mergulhando o indivíduo num dilema ao dividir-se entre o espírito Patriótico e as raízes separacionistas das regiões. Esse é de facto o papel de deslocamento, o papel da história comum para todos os portugueses e a recusa da importância difusa das regiões. Reconhecendo esta complexidade e a riqueza multicultural na sua obra, Dias institui então um padrão matricial reforçado pelo papel do mar como factor uniformizador da aura Portuguesa, refutando os teores saudosistas e sebastianistas.
 Quanto à transmutação, gira à volta de algo tão simples como o sonho, a vocação instintiva do português que não assenta na realidade e em lugares-comuns recorrendo á evocação freudiana do inconsciente. O sonho como operador central que o levou aos Descobrimentos, que dita o seu fado mas que também funciona como contraponto negativo pois recusa o sentido prático e terreno do progresso. Transmuta-se, portanto, no que não é mas que podia – e devia – ser. O seu idealismo utópico.
Na verdadeira acepção erudita e cultural, Portugal assume-se desenquadrado do panorama internacional, revogando as condições universais e progressivas da intelectualidade e arte. Adoptando a sua própria doutrina desembaraçada, viva e adaptativa, ao fim e ao cabo, a sua Natureza profunda e pitoresca da alma nacional, definindo assim o seu efeito máscara.

Quanto ao filósofo Eduardo Lourenço e aos seus “Labirintos da Saudade”, estes assumme-se transversais no que toca a considerar a Identidade Nacional. Ao adoptar um olhar critico de desconstrucção mítica e profética, revela o seu enfoque exterior e distante à margem do estabelecido como o irrealismo imagético/idiossincrático da tradição Lusitana.
 Ao referir o providencialismo de rever e renovar os mitos e as estórias que nos encarnam ele caracteriza um fundo mais rude e modesto de liberdade moura e esperança sebastianista com uma alienação e superstição messiânica relacionada atavicamente com os nossos antepassados. Contudo considera Portugal um povo sem problemas de Identidade algo que o separa das personalidades precedentes mesmo subentendendo a hiper-identidade lusa reveladora de uma essência – algo descortinado pelos três efeitos cânone aqui aplicados.
 Esse afastamento mítico provoca denúncia e recusa a vinculação temporal. Ao recusar o passado e o futuro e ao garantir a fatalidade do presente essencializa a nossa extrapolação do mundo terreno afirmando que vivemos em permanente mitologia. Considera essa busca incessante ao procurar uma alternativa à ordem capitalista ou como proferiu Jorge Dias, ao recriar uma Arte europeia na particularização do Manuelino.
A transmutação da nação individualizante é outra razão de singularidade de Lourenço no seu discurso. Ao admitir, uma vivência da nação em função de uma imagem irrealista, tende a subverter a fórmula real/ideal para irreal/ideal e dá o exemplo do Portugal salazarista que ao fabricar um sistema de lusitanidade exemplar, ou seja uma imagem irrealista de nós próprios, evidencia a modéstia e contenção do ditador veiculada ao povo com relativo sucesso. Algo que para o autor é uma consequência da própria matriz histórica que emana da nossa Portugalidade. Matriz essa que pela sua substância ameaça a diversidade e a circunstância já que a Naturalização dos traços culturais remetem perigosamente para esse difícil equilíbrio entre as ideias gerais e a ameaça de reificação, tornando-se a máscara daquilo que somos. Essa ligeireza, segundo Lourenço, transpõe para as mais diversas manifestações de arte, na qual, Frei Luíz de Sousa, pelo misticismo e saudade iminentes é o mais seguro exemplo.

Falando agora da obra que motivou este ensaio “Portugal, hoje: O medo de Existir”, José Gil mantém uma acesa ambiguidade com os outros textos como se beliscasse as duas faces da moeda: desconstrói à maneira de Lourenço mas vaticina também como Pascoaes e Dias. Ao reescrever estas narrativas de uma forma cúmplice, torna a sua, referencial e redundante.
 Ao negativizar o estado da Nação aludindo ao medo e inveja como sistema, aproxima-se de Pascoaes muito embora este último, convertendo-a em virtude da individualidade num pináculo Niilista. Ao maldizer do país e suas gentes parafraseia Lourenço e a expectância Portuguesa na descolonização embora Gil reduza a zero a participação cívica e classicista dos Portugueses.
 Ao afastarmo-nos pouco a pouco da sua reescrita, percebemos que o espírito efabular e de continuidade com a genealogia de textos por aqui vigente de uma forma renovada rejeitando o primordialismo e o providencialismo da história, faz com que José Gil tenha alcançado tal sucesso editorial e social. Ao fugir deste apego secular e fatalista propõe a integração na modernidade – desconhecida para Portugal – numa atitude de inconformismo que o aproxima de Eduardo Lourenço. Porque para ambos é a entrada na Europa e a procura do seu espaço que provoca o seu grande devir moderno.
Paradoxalmente, Gil não escapa à mitificação crónica que admite ser integralista de um certo espírito lusitano e aqui entram novamente os três efeitos.
 Ao incrementar o principio da não-inscriçao com o efeito de deslocamento e invocando o exemplo da bruma entorpecida em que vivemos à espera de D. Sebastião, o autor enforma duas perspectivas: da inactividade e passividade que se vive, porém eternizando esse momento fatalmente. Concluindo Gil em tom crítico, “como vivemos do nevoeiro, vivemos fora do tempo e longe do acontecimento”. Transmutando a realidade, Gil agudiza essa aversão do ideal, simplificando o real e/ou aperfeiçoando como refere, lembrando o esquecimento actual daquele que morre ou que está enfermo.
No efeito máscara, a essência está na avultação das pequenas coisas e pequenos prazeres, algo tomado por um enclausuramento do sentido e da liberdade questionando o autor estes dois referenciais sociais, bem como a comunicação que se impõe nos dias de hoje, embora este último no domínio de uma natureza manipulável, (Estado novo).

Concluindo, todos os quatro autores aqui citados explanam as suas interpretações e pensamentos constituindo um importante espólio na compreensão de quem somos e para onde vamos. Uns mais positivistas, outros negativistas. Uns modernistas e outros tradicionalistas. Mas sobretudo com sobriedade necessárias para perceber e considerar a Nação como um todo, onde interagimos e damos a conhecer a nossa individualidade. Pois a projecção de uma sociedade ideal e a Naturalização dos traços culturais de um povo são aspectos importantes na reificação da nação.»


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