01
Mar
08

A diferenciação jornalística.

A propósito da renovação gráfica de vários jornais portugueses e da dimensão empírica de algumas consultadorias e agências de imagem nos mesmos, achei por bem publicar aqui um artigo de opinião de José António Saraiva director do Semanário Sol e ex-director do Expresso que foca no essencial o papel que a comunicação social deve assumir atendendo ao seu espaço e tempo e dirigido a um público que embora silencioso é determinante nas escolhas e decisões de um jornal moderno.

Passo a palavra ao Arq. Saraiva:

 

O declínio da imprensa tradicional

No dia 4 de Novembro, os espanhóis que afluíram às bancas dos jornais foram surpreendidos por um facto nunca visto em mais de 150 anos de imprensa regular: as primeiras páginas de dois grandes diários – o El País e o El Mundo – eram exactamente iguais.
Eram iguais quer no layout (a mancha gráfica) quer na escolha das notícias. Tinham ambas três chamadas ao interior por baixo do logótipo; a fotografia principal era a mesma (sobre os confrontos no Paquistão), com a mesma dimensão (a três colunas) e a mesma localização na página (em cima, à direita); o título principal estava no mesmo sítio (em cima, à esquerda), tinha o mesmo número de colunas (duas) e de linhas (quatro), e versava sobre o mesmo tema (um diferendo entre Espanha e Marrocos); o título secundário (sobre Musharraf) idem, idem; a notícia da parte de baixo da página era a única que diferia no número de colunas mas era dedicada ao mesmo assunto (o atentado de 11 de Março).
Por várias vezes sucede a Time e a Newsweek terem a mesma capa. Mas a situação é completamente diferente: são revistas semanais, a capa só contém um tema, e, sendo certo que em determinadas semanas há um assunto que domina claramente a actualidade, a semelhança é natural.
Mas é insólito que duas primeiras páginas de jornal – que têm muitos elementos, entre títulos, notícias e fotografias, permitindo por isso inúmeras possibilidades de combinação – sejam iguais.
Pensarão alguns que se tratou de uma tremenda coincidência. Não foi só isso, porém: o fenómeno pôde acontecer em consequência de um vírus que ameaça todo o Globo – o vírus da indiferenciação.

Esse vírus provoca o esbatimento das diferenças, levando a que tudo seja padronizado, igualizado, uniformizado.
E aqui tem papel activo uma classe profissional que se desenvolveu vertiginosamente nos últimos dez anos: a classe dos consultores. No sector dos media, quase todos os grupos actualmente os contratam – chegando algumas empresas de consultadoria a trabalhar simultaneamente para diferentes meios de comunicação dentro do mesmo país e, muitas vezes, para diferentes meios em diferentes países. Teoricamente, este fenómeno é bom – porque os consultores têm experiência, acompanham o que se faz em vários locais do mundo, podendo representar para quem os contrata uma mais-valia, uma modernização.
Analisemos, porém, alguns exemplos que conheço.

O Diário de Notícias contratou há cerca de 15 anos os serviços do guru cubano (a viver nos EUA), de reputação mundial, Mario Garcia, para fazer uma reformulação gráfica. Pois bem: o DN desde aí não parou de descer, vendendo hoje cerca de metade do que vendia nessa altura. N’A Capital também esteve uma equipa de consultores, da reputada Innovation. Pois bem: A Capital entrou a seguir em declínio acelerado, vindo a fechar. Na SIC esteve a mesma empresa; nessa altura a SIC era líder de mercado – e hoje é terceira. Pelo Correio da Manhã passou igualmente uma empresa de consultadoria; julgo que não a querem voltar a ver lá. O Público fez há meses uma enorme reformulação, editorial e gráfica, da responsabilidade de reputados designers ingleses. Pois o Público está a vender menos cerca de três mil exemplares do que há um ano, apesar da enorme e dispendiosa campanha publicitária que levou a cabo. E com o Expresso sucede o mesmo: após uma profunda remodelação executada por consultores estrangeiros, que mudou por completo o visual, está a vender menos do que no ano passado, mesmo com sucessivas ofertas de DVD.
Resta dizer que estas intervenções dos consultores, que têm contribuído para baixar as vendas, custam centenas de milhares de euros.

Como perceber este aparente paradoxo, esta atracção suicida pela contratação de consultores?
O segredo dos consultores é apresentarem-se como profetas da desgraça. Invocando a sua experiência, dizem, como quem faz uma profecia: no mundo dos media vai acontecer isto e aquilo, e se você não mudar está liquidado. E somos nós quem o podemos ajudar nessa mudança.
Perante isto, o empresário assusta-se.
É como se o médico dissesse ao doente: se você não fizer esta operação, está condenado. O doente, mesmo que não se sinta muito mal, fica em pânico – e acaba por se entregar nas mãos do médico. E, se morrer, o médico dirá: ele não tinha salvação. E se passar a sentir-se pior, o médico argumentará: se não tivesse sido operado, tinha morrido. E quem poderá provar o contrário? A vida tem destas coisas: nunca se pode fazer a contraprova, porque não é possível voltar atrás.

Sobre os consultores, contava-se há tempos uma saborosa anedota.
Um jipe parou no meio do campo, saindo de lá um indivíduo todo despachado que perguntou a um pastor:
– Ouça lá, se eu conseguir adivinhar o número de ovelhas que tem o seu rebanho, você dá-me uma ovelha?
O pastor concordou. O indivíduo fez então umas contas numa calculadora e disparou:
– Tem 262 ovelhas.
– Acertou! – disse o pastor, espantado.
O indivíduo foi buscar a ovelha e preparava-se para entrar no jipe, mas o pastor fez-lhe sinal para parar:
– Olhe lá, se eu acertar na sua profissão você devolve-me a ovelha?
O outro assentiu, e o pastor atirou:
– Você é consultor.
– Também acertou! – disse agora o intruso, impressionado. – Mas como é que adivinhou?
Respondeu o pastor:
– Olhe, porque veio de jipe, entrou aqui sem ninguém o chamar e em vez de ir buscar uma ovelha trouxe o cão do rebanho.

Esta história tem a seguinte moral: os consultores estão bem apetrechados, têm muita informação, mas conhecem muitas vezes mal a realidade sobre a qual intervêm. E, assim sendo, tendem a usar as mesmas regras, as mesmas normas, as mesmas receitas em toda a parte.
Por via disto, é possível encontrar hoje um jornal na Venezuela ou na Colômbia igual a outro em Portugal ou na Áustria. O que representa um erro. Porque, para lá de ser um empobrecimento, vai ao arrepio das culturas locais e dos respectivos mercados.
Historicamente, os jornais italianos (alegres, com muitos destaques, muitos subtítulos) são muito diferentes dos alemães (densos, com longos textos); e os alemães são diferentes dos ingleses (divididos entre tablóides agressivos e ruidosos, e broadsheets clássicos e elegantes); e os ingleses são diferentes dos franceses (que se aproximam dos alemães, embora menos densos); e os franceses são diferentes dos espanhóis (mais nervosos, com mais imagens e textos mais curtos); e assim por diante.

A uniformização dos jornais tende a matar estas diferenças; ora a sobrevivência da imprensa passa exactamente pela atitude contrária. O futuro da imprensa passa pela diferenciação e não pela uniformização. Quando os jornais se aproximam uns dos outros, o apetite de comprar o jornal diminui. Quando o jornalismo é tão previsível que duas primeiras páginas de jornais diferentes são iguais, a imprensa perde todo o appeal. Um jornal deve ser novidade, imprevisto, e não um caldo requentado.
Um dia, ouvi da boca de Juan António Giner, presidente da Innovation, uma frase que não esqueci (como se vê, não digo só mal dos consultores): o bom jornalismo é aquele que «surpreende, emociona e faz pensar».
O problema das empresas de consultadoria é que o seu trabalho produz muitas vezes o efeito oposto: ao fazerem layouts iguais para jornais aqui, nos EUA ou no Brasil, ao proporem organizações iguais aqui, nos EUA ou no Brasil, ao sugerirem soluções iguais aqui, nos EUA ou no Brasil, estão a contribuir para que os jornais se uniformizem, se indiferenciem e não surpreendam ninguém.
Aos jornalistas, eu recomendo o contrário: alegria, imaginação, criatividade e gosto pela diferença. Só esta atitude por parte dos profissionais da comunicação revigorará o jornalismo escrito, travando o declínio da imprensa.

By José António Saraiva


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