24
Fev
08

É arte, e depois?

A Evolução natural do Homem e as relíquias naturais que prevaleceram (Foz Côa) indicam que a arte tem acompanhado as manifestações humanas desde a Pré-história até hoje. As civilizações, tribos e os seus sectores gregários exprimiam-se de uma maneira particular dando forma a uma cronologia que delimitava, no espaço e no tempo, os diferentes movimentos artísticos. Que se modernizavam, complementavam ou simplesmente se substituíam.

Ernst Gombrich, famoso historiador de arte, afirmou que “nada existe realmente a que se possa dar o nome de Arte. Existem somente artistas”. E a bem dizer, a perspectiva deste Austríaco vai ao encontro da confusão conceptual que se atribuiu à segunda metade do século XX e à Pangeia político/económica, que a intensificou: A arte Contemporânea. Mas que tipo de arte é esta e que efeitos práticos tem na cultura actual?

Pois bem, enquanto uns invocam o difícil mas compreensível conceito regressivo e de volta às origens, a tão propalada cena retro, eu prefiro sublinhar a emergência da chamada arte abstracta e (paradoxalmente com os defensores do retro) da enigmática cena pós moderna, em que quase tudo é permitido, e a sua diáspora global.

Assim sendo, recuemos no tempo, para tentar explanar estas minhas considerações e dar-lhes algum sentido. Primeiro, foram as famosas latas de merda de Manzoni, a Virgem Maria em bosta de elefante de Chris Ofili, ou o crucifixo banhado em urina de Andres Serrano. O chamado expressionismo escatológico que escandalizou os estratos mais conservadores e elitistas, tentando elevar ao extremo a influência do feio e do grotesco nos corredores das mais famosas galerias e museus de arte contemporânea.

Tudo se tornou mais sério e fulminante com a recente notícia que relata a bizarra e surrealista exposição na Cidade do México, onde Guillermo H. Vargas deu azo à sua terrível inspiração, colocando em cena um cão rafeiro visivelmente ferido e sub nutrido acorrentado a uma esquina da galeria local. Isto durante dias e dias até aparecerem as primeiras suspeitas da morte física do cachorro. Acima deste triste espectáculo, estaria colocada uma placa com a frase: “Tu és aquilo que lês!

Não vou aqui discutir, a promiscuidade entre a mensagem e a imagem, nem tampouco, a discutível legitimação da intencionalidade estética do autor. Mas não posso deixar de destacar três factores essenciais a esta problemática:

1. Todos estes casos, aparentemente arrojados e decadentes, não estão isolados: nem entre si, nem com o meio que os rodeia;

2. Desafiam, passivamente, valores como a liberdade de expressão e a plasticidade das relações humanas, encostando – os diante daqueles que questionam a dimensão artística do representado;

3. Agilizam a velha profecia, de retirar o invólucro à criação, homogeneizando os dois ambientes (o social e o artístico) tentando transpor as obras do museu para rua.

Ora, não nos esqueçamos que isto só se poderia conceber numa atmosfera altamente globalizada e massificada, onde a dicotomia Impulso/Resposta é interpretada num cenário equitativo e uniforme em todas a s Nações e Estados. A indignação em Portugal é igual à do México, e Vargas sabe-o bem. Até porque, segundo o Porto-Riquenho, a motivação inerente à obra era a de transmitir diferentes sensações em diferentes cenários. O cão que na rua passa despercebido, transformando-se em ira e indignação aos olhos de um turista ou crítico de arte.

Não pretendo com estes argumentos, dizer que tem razão e que concordo com a sua prática. Mas afirmo, que com toda esta polémica, conseguiram abalar os cânones e bases de certas correntes artísticas como, a Sacra, a Clássica ou mesmo a Cultura Pop. Ridicularizam os conceitos de kitch e de trendy, de elites e plebeus, da autenticidade e ficção. À imagem de Piero Manzoni que vendeu latas com os seus excrementos, intitulando-as de “ Merda de Artista”, para assédio das maiores galerias de arte, como a Londrina Tate ou a Nova Iorquina Metropolitan. Na realidade, ninguém põe em causa a espontaneidade de tal feito.

Ambos testam os limites de aceitabilidade do seu público e a liberdade de expressão que, de facto, promovem. E sentem-se confortáveis neste seu divã mediático.

Mas, afinal, não será isto, arte? Boa pergunta, embora para muitos este seja o cerne da questão, o que é que isso interessa, são artistas.


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