É sempre complicada a tarefa de tecer considerações sobre alguma coisa ou alguém. Ainda por cima num país que só começou a valorizar esta nobre arte cívica há pouco mais de 30 anos. São como areias movediças que nos vão sugando lentamente à medida que escrevemos, que arriscamos, que pensamos. Porque obriga-nos a ser coerentes, justos e isentos. Porque estamos mais expostos ao erro. Porque não lhe podemos virar a cara. Juntem à receita a aversão endógena que as corporações, sindicatos e os poderosos deste país têm por este luxo. Os portugueses não lidam bem com a crítica ou simplesmente com as clivagens de opinião. Não gostam dela, não a valorizam. Chegam ao ponto de a obliterar num estado de direito. Mas, pergunto-me, porque razão isto acontece? Será falta de chá? Tenho uma teoria para isso. O português não preza a liberdade de expressão porque prefere ser dono da razão a contribuir para a discussão pública. São alérgicos ao confronto de ideias e esmagam com presunção e grosseria qualquer argumentário desviante. Uma escola que provém de séculos de ausência de responsabilidade social, de iniciativa individual e do persistente mendigar ao estado. Uma história triste com raízes no Estado Novo. Para quê estar a contribuir com migalhas quando podemos estar junto da família das patacas. Porque se submetem muitos homens livres e “independentes” (rica palavra que se inventou) a esta maçada do contraditório quando se podem juntar aos autómatos atraídos pelo magnetismo do pensamento único. Na verdade, é muito mais fácil abstermo-nos de questionar, de verberar por melhores condições a diferentes níveis quando quem manda recomenda silêncio a quem deve obedecer. Quando os patronos do regime utilizam estratégias de atemorização e fazem de órgãos de comunicação social alvo em congressos. Foi isso que fizeram Hitler e Estaline. É isso que fazem Hugo Chávez e José Eduardo dos Santos. Esta evidência vai-se reflectindo nos mais variados espaços da opinião pública: das tribunas e jornais até às mais insignificantes caixas de comentários blogosféricos. Não admira que José Saramago tenha apelado para uma maior educação para a tolerância. Ela escasseia e vai se esfumando. Talvez, quando eu acordar num país onde um primeiro-ministro não se menospreze por uma metáfora com a Cicciolina em plena crise ideológica, social e financeira, talvez eu aí mude de ideias.
Conto-vos uma pequena história. Um cronista da nossa praça resolveu manifestar a sua solidariedade por um conhecido deputado da nação que foi envolvido num caso de escândalo sexual e posteriormente absolvido por um tribunal de todas as acusações que lhe foram feitas. Crendo (apesar de todas as suspeições e críticas) na soberania do poder judicial deste país, o caso não daria pano para mangas, pensei eu. Pois bem, esse dito post e a dignidade do seu autor foram arrasadas pelas acusações mais obscenas e grosseiras de que me lembro, por gente que insiste em fazer justiça pelas próprias mãos. Pelo meio resolvi mandar a minha estocada e fui envolvido no remoinho de insultos pelos mesmos selvagens. Resultado: o blogger decidiu encerrar a caixa de comentários (como não poderia deixar de ser) para salvaguardar a decência da casa. Tudo isto se passou aqui. Façam a interpretação que quiserem.
P.S: Desde já vos aviso, não serei tão irredutível como o União de Facto mas decidi não aceitar comentários dessa natureza daqui para a frente. Depois não se queixem de censura.
P.S.2: Termino com a publicação do texto que anda nas bocas do mundo. João Miguel Tavares, colunista do DN escreveu isto e arcou com as consequências. Descubram se a imagem apresentada é assim tão diferente da realidade.
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