Arquivo da categoria 'Portugal'
Glosa para José Pacheco Pereira 
são sentimentos humanos,
eu na alma hei-de pôr luto:
o abrupto hoje faz anos,
não pode ficar “abruto”!
não deve viver-se à míngua,
neste nosso dia-a-dia,
de prezar a ortografia
que bem calha à nossa língua.
se lhe dão facadas, vingo-a,
passo logo a fazer planos,
eriçado por tais danos,
de lavrar o meu protesto,
e se assim me manifesto
são sentimentos humanos.
chamo então especialistas,
eminentes professores,
os colegas escritores
e também vários linguistas,
leio livros e revistas,
questiono, leio, escuto,
e aprendendo assim refuto
coisa que é tão aberrante
que se acaso for àvante
eu na alma hei-de pôr luto.
grafias facultativas
em matérias tão sisudas
como as consoantes mudas
levam ao caos, às derivas,
às asneiras permissivas
e aos babélicos enganos.
porém fiquemos ufanos
pela data que hoje passa.
pois não sabiam? tem graça…
o abrupto hoje faz anos…
se lhe tirassem o p,
vigorosa consoante
do seu título, bastante
mal faziam, já se vê.
e percebe-se porquê
sem se gastar um minuto:
se do p ficar enxuto,
vão-se a força e a coragem
abruptamente da imagem:
não pode ficar “abruto”!
by Vasco Graça Moura
Será mesmo ?
Preparam-se para encarar um “Portugal” que não veêm em jornais, blogues, nem nos mais pessimistas comentários. Esta é uma visão realista, de sucesso, de um país sem mediatismo nem reconhecimento. Admito que na primeira vez que o li, senti-me desconfortável tal era o distanciamento com o país apreendido que nos esbanjam pela casa adentro. Afogado por este “Portugalinho” falhado que serve para alimentar o ego de muita gente e vender jornais. Afinal, depois de ler isto, o caro leitor concluirá que na maioria dos casos só nos deixam ver aquilo que nos desanima e nos envergonha - o Portugal na lama. Porque esta mentalidade autofágica e mutiladora, adicta de crenças e opiniões acéfalas é o reflexo da lavagem cerebral que não nos deixa enxergar «o caminho» e «a missão».
Convosco fica o Portugal de Nicolau Santos, director-adjunto do EXPRESSO:
99,7%…
…é a percentagem pela qual Alberto João Jardim foi eleito presidente da Comissão Política Regional do PSD-Madeira. Imagino o que terão feito ao militante 0,3% - salvo se for abstenção, é claro. Já lá dizia o outro, que a Madeira não é uma autocracia. Por estes números, é um unanimismo.

( clique na foto para ampliar)
Este é um caso vulgar, por muito que nos custe admitir. E não poderia vir em altura mais propícia. Coloco-o de forma propositada não só pelo cariz humorístico como pelo paradigmatismo de uma reforma da educação que tem de ser levada para a frente custe o que custar. Ao revés de minudências truculentas e establishments arcaizantes e conservadores que não fazem nada mais do que atrasar o progresso estrutural de um país que passou as últimas décadas a olhar a “Europa” a quilómetros de distância.
Para que daqui a alguns anos alguém tenha a decência e a compostura de não dar uma resposta idêntica a um docente escolar. Para que a figura do pai e de mãe não se substitua à do professor e para que essa mesma figura paterna tenha a prudência de confiar o seu filho a um lugar onde se aprende e se é incitado a aprender.
Porque quer queiramos quer não, toda esta encenação da correpondência escolar só resulta e ganha forma pelo “eduquês” salazarento que alastrou pelo portugal rural do século XX. Onde subsistia uma classe letrada aristocrática e endinheirada e uma pequena burguesia num mar plebe de gente que via a ordenha e o campo como futuro de vida. Onde a escola e o alfabeto eram “luxos de ricos” além de irrelevantes e proibitivos numa ditadura “fascistóide” e lúgubre. E é por isso (e não só) que vivemos num regime democrático - para mudar.
No âmbito de uma disciplina da universidade que tratava do reconhecimento da cultura e diáspora portuguesa, foi-me pedido uma breve análise e resumo de uma obra que explorasse este característico universo que é a cultura portuguesa.
Optei por um desafio arriscado que me tirou algumas horas de sono mas que valeu bem a pena pela substância e pertinência retidas no ensaio de Luís Cunha: “Identidade da Nação; Encenação e Narrativa”.
Aqui fica por minhas palavras o resumo da obra num enfoque sintáctico, semântico e discursivo.
É relevante que se distinga a melhor e mais actuante produção televisa nacional dos últimos 50 anos. Com isto e relembrando um meu comentário no blogue comunicamos fiquei bastante satisfeito com esta top ten, que premeia em particular o humor refutando aquelas velhas colagens de um portugal triste e macambúzio. Afinal o fado deu-nos para isto: seis dos programas na lista são comédias ou séries humorísticas; um documentário; uma reportagem de investigação; uma série infantil/juvenil; e um talk show nocturno. Como diria o nosso saudoso Fernando Pessa: - «E esta, hein !?!».
Sem Resposta.
Sobre a (in)actividade política do maior partido de direita em Portugal, o seu líder teceu esta surreal confissão via Jornal de Notícias, numa entrevista tendo como ponto de ordem, o conturbado estado de guerrilha interna e a ambição a longo prazo de substituir o actual governo colapsando o “estado de nojo” e o “ruído” que se mantém à volta do PSD:
″PSD ainda não merece estar à frente nas sondagens”
Na resposta, Clara Ferreira Alves habitual comentadora do programa Eixo do mal, da Sic Notícias contestando a passividade de Menezes replica da seguinte forma:
“O poder não se merece. Conquista-se por mérito.”
Comentário do Webmaster: Ipsis Verbis, Clara.
Se decidirem recorrer a uma autoridade intelectual e procurarem no dicionário de Língua portuguesa os termos jornalismo e propaganda, provavelmente encontrarão definições ligeiramente diferentes uma da outra: para propaganda como acto ou efeito de propagar ou difundir um ideia, opinião ou doutrina; para jornalismo como forma de expressão que caracteriza os meios de comunicação social ou conjunto de meios de difusão de informação.
E isto vem a propósito de quê, perguntará o atento leitor.
Surge, pela dificuldade em conceber, hoje em dia nos media, certos critérios e metodologias com que se avançam para questões de inegável relevância social e que requerem de todas as forças civis (comunicação social incluída) a maior atenção e seriedade.
Não se percebe como, num espaço que se quer de ampla discussão com oratórias heterodoxas de parte a parte, as televisões que cobriam a greve dos professores, tenham alimentado a histeria contestatária e convidado a Ministra da Educação a responder a certas perguntas, por transeuntes, do tipo: “Porque é que não se demite? ou “Percebe alguma coisa de Educação?”
Não se percebe de igual forma, que
entrevistas importantes e fiscalizadoras da ordem pública, como as da “Grande Reportagem” sejam conduzidas com tanta ligeireza, sem ser incómoda, num ritmo frouxo sem rasgos, do estilo late night show.
Ao ignorar algumas das regras básicas adjudicadas à sua prática profissional – a investigação; pesquisa; inovação – a classe jornalística contribui para o circo colectivo que se estabeleceu na baixa Lisboeta e para a projecção mediática de políticos engenhosos e demagógicos.
Ao invés, de dissecarem os casos com explicações científicas, quadros de referência ou retrospectivas gerais, preferem brindar-nos com perguntas de domínio público ou acusações passageiras que nada de novo trazem para o escrutínio político dos temas.
Ao veicular insultos gratuitos e teorias pedantes, os órgãos de comunicação social vêm substituir o seu papel de mediador social pelo de propaganda política
E aí, é que as definições vistas e revistas nos dicionários, enciclopédias e “wikipédias” começam a aproximar-se de um ponto de vista prático. E a fronteira ténue entre propaganda e informação começa a esmorecer em nome do absolutismo.
Adoro esta frase.
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¶ A sombra do castanheiro não tem parceiro. Mas a sombra do poder é a que mais faz crescer.
Sei que não vou por aí!
Cântico Negro - José Régio
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista “Presença”, e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.
in Releituras

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