Archive for Março, 2008



09
Mar

Propaganda & Jornalismo I.

Se decidirem recorrer a uma autoridade intelectual e procurarem no dicionário de Língua portuguesa os termos jornalismo e propaganda, provavelmente encontrarão definições ligeiramente diferentes uma da outra: para propaganda como acto ou efeito de propagar ou difundir um ideia, opinião ou doutrina; para jornalismo como forma de expressão que caracteriza os meios de comunicação social ou conjunto de meios de difusão de informação.

E isto vem a propósito de quê, perguntará o atento leitor.

Surge, pela dificuldade em conceber, hoje em dia nos media, certos critérios e metodologias com que se avançam para questões de inegável relevância social e que requerem de todas as forças civis (comunicação social incluída) a maior atenção e seriedade.

Não se percebe como, num espaço que se quer de ampla discussão com oratórias heterodoxas de parte a parte, as televisões que cobriam a greve dos professores, tenham alimentado a histeria contestatária e convidado a Ministra da Educação a responder a certas perguntas, por transeuntes, do tipo: “Porque é que não se demite? ou “Percebe alguma coisa de Educação?”

Não se percebe de igual forma, que entrevistas importantes e fiscalizadoras da ordem pública, como as da “Grande Reportagem” sejam conduzidas com tanta ligeireza, sem ser incómoda, num ritmo frouxo sem rasgos, do estilo late night show.

Ao ignorar algumas das regras básicas adjudicadas à sua prática profissional – a investigação; pesquisa; inovação – a classe jornalística contribui para o circo colectivo que se estabeleceu na baixa Lisboeta e para a projecção mediática de políticos engenhosos e demagógicos.

Ao invés, de dissecarem os casos com explicações científicas, quadros de referência ou retrospectivas gerais, preferem brindar-nos com perguntas de domínio público ou acusações passageiras que nada de novo trazem para o escrutínio político dos temas.

Ao veicular insultos gratuitos e teorias pedantes, os órgãos de comunicação social vêm substituir o seu papel de mediador social pelo de propaganda política

E aí, é que as definições vistas e revistas nos dicionários, enciclopédias e “wikipédias” começam a aproximar-se de um ponto de vista prático. E a fronteira ténue entre propaganda e informação começa a esmorecer em nome do absolutismo.

09
Mar

Adoro esta frase.

¶ A sombra do castanheiro não tem parceiro. Mas a sombra do poder é a que mais faz crescer.

08
Mar

Porque Cuba, não é só Fidel.

Ibrahim Ferrer (1927-2005), el señor de los boleros.

08
Mar

Sei que não vou por aí!

 Cântico Negro - José Régio

 

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista “Presença”, e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

in Releituras

08
Mar

Os EUA e o Mundo.

Ao permitir-me escrever estas linhas dou azo à minha reflexão sobre o Estado do Ocidente nos dois lados do Atlântico. Uma América a tentar reerguer-se do colapso de quase oito anos de uma incompreensível administração Bush e uma inconstante e diletante zona Europeia que cada vez mais se evidencia como lembrete daquilo que foi numa figura de ancião avulso à mudança e expectante quanto ao aparecimento das novas “potências” do Mundo Global. Mas não é sobre a situação das instituições e organismos governamentais que vos falo neste texto. O meu raciocínio é um tanto mais profundo.     

Dando como adquirido que as sociedades modernas estão em mudança constante, aprender a mudar a nossa forma de pensar ajustando-as às necessidades e idiossincrasias actuais, nem sempre é tarefa fácil. Pelo contrário, é mais fácil resistir à mudança do que tentar aceitá-la ou pelo menos permitir-se a experimentá-la. Ir na onda da crítica fácil e da análise superficial tem sido a prática habitual de uma sociedade de informação viciada e igualmente superficial

Distantes que estão todas as movimentações históricas, migratórias, culturais e reivindicativas ainda que presente em muitas consciências, pelas boas e as más razões, há que assentar um modelo social de integração e convergência nas múltiplas plataformas e conceitos que se conjecturam beneméritas às minorias, correspondidas por raça, sexo, credo e cor.

No que toca à compreensão dos EUA e dados os episódios mais recentes da história do País se me perguntarem se este conceito é de fácil aplicação, replicarei de imediato que não, atendendo às próprias origens e progressos de tão vasto País. País esse, que não é mais do que uma amostra difusa e extraordinariamente dinâmica daquilo que nós, Europeus, Africanos e Asiáticos, somos.

Acima de tudo e respeitando os legítimos mas falíveis conceitos de salad bowl ou melting pot, os EUA representam o sucesso e a grandeza do “novo mundo”. Um Éden de esperança em que todas as diferenças se esbatem num modelo plural que ninguém se atreve a qualificar ou classificar. Um Modelo que os leva a todos a defender a sua bandeira e o seu hino. Em síntese, um mosaico cultural numa sala vertiginosa de janelas abertas ao Mundo que materializa a ideologia nacionalista de um mantra europeísta.

É curioso no entanto, repararmos nas mais ressaltivas orientações sociais e nacionais, de cada um dos lados do Atlântico, pois desde sempre compreendi a América como um grupo de Estados Unidos a concorrer frente a Estados Isolados. Estados compostos por gente diferente de tradições singulares, unidos por um Sistema Político aglutinador, mas que ao fim e ao cabo, não passa disso. As características diferentes e distantes inter pares, permanecem sem se tornarem residuais.

Do outro lado da barricada, os meus botões me dizem, que a grande ambiguidade Europeísta do novo século reside no contra-senso em se tornarem a profecia dos Estados Unidos da Europa por fragmentos nacionalistas cujas sucessivas divisões étnicas, religiosas ou mesmo politiqueiras, estruturaram o “Velho Continente” num demorado e impaciente “puzzle” geográfico. O Kosovo é só mais um exemplo do que menciono, parecendo-nos unidos perante o Mundo numa efervescência separatista de dimensão empírica criteriosa.

Por terras de “Tio Sam” isto não se verifica por uma razão muito simples: sempre conviveram com esta “filosofia de alteridade” desde o seu germinar até à candidatura presidencial de um Afro-americano. E encaram-na como uma realidade permanente e irreversível.

Ao condensar o que de melhor e pior nós temos, os norte-americanos esboçam, da mesma forma, as atribulações e implosões sociais que vão ocorrendo nos lugares-comuns de cada canto do planeta. Como se fossem espelhos disformes de todos os outros.

A possível eleição democrata apelará a isso e ditará os destinos da América no que toca ao terrorismo a à radicalização do gosto. E vem pôr término à proselitista e demagógica teoria de que “quem não gosta de Bush, não gosta da América”. Como se não houvessem razões de propriedade moral e intelectual a apontar a tão triste e evangélica figura. 

Para que a normalidade se reinstale, basta que se apele ao Humanismo e á Tolerância. Que é Europeia de certidão, e Americana de testemunho.

08
Mar

Proposta da semana #1

Filme: “A morte do Sr. Lazarescu”

Título Original: “Moartea domnului Lazarescu” (2005)

Realização: Cristi Puiu

Argumento: Cristi Puiu & Razvan Radulescu

Actores: Ion Fiscuteanu - Mr. Lazarescu
                Luminita Gheorghiu - Mioara Avram
                Gabriel Spahiu - Leo
                Doru Ana - Sandu Sterian

Um cheirinho do Leste, numa comédia melodramática irrepreensivelmente bem feita que mostra um retrato realista dos dias de hoje confirmado pela teoria dos irmãos Cohen de que “Este país não é para velhos”. Inserindo-se na velha escola europeia de cinema de autor, Cristi Puiu oferece-nos de bandeja a crueldade e indeferença psicoafectiva das sociedades modernas de uma forma simples mas nem por isso agradável. A não perder. Está em cartaz, na segunda, dia 10 de Março no pequeno auditório do Teatro de Vila Real, na rubrica “Cinema sem pipocas”.

 [Ver crítica] 

08
Mar

Um “embrulhozinho” à conta do freguês.

Não que as ditas revistas masculinas suscitem grande interesse e relevância à linha editorial aqui do blogue (mesmo considerando as horríveis análises de actualidade da “Maxmen”) agora, o que me fez publicar em seu nome foi este incompreensível e anedótica declaração de João Godinho director da revista FHM, justificando o não pagamento das respectivas “posers” mensais da revista:

Belas referências numa “dança a dois”, porque a FHM não utiliza as suas mulheres como “objectos” mas sim como “produtos” onde tudo se vende menos a hedónica honra e respeitinho intrépido que bem são precisas numa época em que se “desvirtua os valores” de revistas masculinas. Sim, valores que são equitativos tanto para A FHM como para a Playboy. Soa-me é a falso pudor, mas isso sou eu que não percebo nada disto e além do mais não conheço as regras do”jogo”, nesta “dança” da decadência entre um figurão público analfabeto e uma revista que baseia a sua existência em trocos perdidos na algibeira por um belo par de “mamas”.

Vide: Uma palhaçada das antigas.

01
Mar

A diferenciação jornalística.

A propósito da renovação gráfica de vários jornais portugueses e da dimensão empírica de algumas consultadorias e agências de imagem nos mesmos, achei por bem publicar aqui um artigo de opinião de José António Saraiva director do Semanário Sol e ex-director do Expresso que foca no essencial o papel que a comunicação social deve assumir atendendo ao seu espaço e tempo e dirigido a um público que embora silencioso é determinante nas escolhas e decisões de um jornal moderno.

Passo a palavra ao Arq. Saraiva:

  Continue a ler ‘A diferenciação jornalística.’

01
Mar

CHEGA !!!

E é já, numa toada irrisória e cansativa que publico este mais recente post sobre o delirante “universo” político Português. Desta vez venho vos falar de um menino. Um menino guerreiro, melhor dizendo. Exímio, ao caluniar adversários políticos espalhando boatos pedantes e sórdidos que fariam Sá Carneiro dar voltas ao caixão. Intocável, recorrendo à sua estratégia de vitimização constante, ora acusando este, ora acusando aquele pelas mais variadas falhas e derrotas que vai somando. Crispado com Cavaco Silva, Pacheco Pereira, M. Rebelo Sousa ou Jorge Sampaio vá-se lá saber porquê (ou será que não). Usando o deboche e a contra-informação como armas de arremeso políticas.

Mas nisto ele está perfeitamente convicto - foi vítima de maquiavélicas conspirações por homens-sombra da alta esfera política visando destruí-lo e afastá-lo dos altruístas postos que ocupava. Estamos a falar de um homem que ajudou a afundar a Câmara mais endivididada do País e que foi co-responsável com o não menos discreto P. Portas pelo sofrível e vergonhoso XVI Governo Constitucional de portugal. Resumindo e sem mais espaço para falsas ironias, um cadáver político que persiste em se arrastar pelo ridículo que é a sua agenda, as suas intervenções, a sua liderança bicéfala.

Ele é vê-lo, a visitar o “País Real”, a “caçar” na sua bancada parlamentar algumas ”bruxas” indesejadas e a esgrimir o seu ego e personalidade de estado com o antigo colega de comentários na RTP. Tudo isto relativamente aceitável e previsível dado o estado de catatonia em que se encontra o PSD e a sua incursão populista e ideológica - se é que a tem.

O que já começa a cansar e ultrapassa os limites da razoabilidade e do bom-senso é a mais recente cruzada contra os media e “esta espécie de democracia”, em mais uma das inúmeras figuras de inocente e indefeso, dono da verdade, enfim, eterno injustiçado.

Argumento: Julga que os jornais e TV’s apaparicam Sócrates e o seu executivo defendendo-o exaustivamente - dando o estranho caso da sua entrevista à Sic, como exemplo, perseguindo-o a ele com reportagens maldosas (Ângela Silva do Expresso), perguntas agressivas (Clara de Sousa da SIC) desabafando mais uma “pérola” com acesso directo ao anedotário nacional, transcrita do seu blogue: «…o único país da Europa em que se lê toda a Imprensa e não há um único jornal com linha editorial e com opinião próximas da Oposição (PSD).»

Ora, isto não se restringe apenas por ser falso e ridículo. Qualquer leitor assíduo e espectador atento dos generalistas e/ou cabo dá por falaciosas estas críticas de Santana. Mas como dizia, estas lamúrias não são só falsas, como integram a velha ambição de Santana ver a imprensa conservadora e elitista do seu lado e a fazer claque contra o poder instituído. Porém, “a bota não bate com a perdigota” pois o papel dos media na sociedade civil está bem esclarecido e não resulta como “oposição” aliada da oposição.

Santana e a sua outra metade encefálica (Menezes) têm o reflexo da sua partidarização incapaz, nos jornais. É normal que ele fique acabrunhado. Agora, é petulância a mais usar os media como “bode expiatório” naquilo que lhe compete fazer. O quarto poder ainda não substitui os primeiros. E Santana Lopes revela com isto que não aprendeu nada desde a sua destituição por Sampaio.

Veremos para quem sobrarão as culpas, nas legislativas de 2009.

    




Cérebro da operação.

Blog Stats

  • 2,923 hits

 

Março 2008
S T Q Q S S D
« Fev   Abr »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Espelhos de alma