Ibrahim Ferrer (1927-2005), el señor de los boleros.
Ibrahim Ferrer (1927-2005), el señor de los boleros.
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista “Presença”, e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.
in Releituras
Ao permitir-me escrever estas linhas dou azo à minha reflexão sobre o Estado do Ocidente nos dois lados do Atlântico. Uma América a tentar reerguer-se do colapso de quase oito anos de uma incompreensível administração Bush e uma inconstante e diletante zona Europeia que cada vez mais se evidencia como lembrete daquilo que foi numa figura de ancião avulso à mudança e expectante quanto ao aparecimento das novas “potências” do Mundo Global. Mas não é sobre a situação das instituições e organismos governamentais que vos falo neste texto. O meu raciocínio é um tanto mais profundo.
Dando como adquirido que as sociedades modernas estão em mudança constante, aprender a mudar a nossa forma de pensar ajustando-as às necessidades e idiossincrasias actuais, nem sempre é tarefa fácil. Pelo contrário, é mais fácil resistir à mudança do que tentar aceitá-la ou pelo menos permitir-se a experimentá-la. Ir na onda da crítica fácil e da análise superficial tem sido a prática habitual de uma sociedade de informação viciada e igualmente superficial
Distantes que estão todas as movimentações históricas, migratórias, culturais e reivindicativas ainda que presente em muitas consciências, pelas boas e as más razões, há que assentar um modelo social de integração e convergência nas múltiplas plataformas e conceitos que se conjecturam beneméritas às minorias, correspondidas por raça, sexo, credo e cor.
No que toca à compreensão dos EUA e dados os episódios mais recentes da história do País se me perguntarem se este conceito é de fácil aplicação, replicarei de imediato que não, atendendo às próprias origens e progressos de tão vasto País. País esse, que não é mais do que uma amostra difusa e extraordinariamente dinâmica daquilo que nós, Europeus, Africanos e Asiáticos, somos.
Acima de tudo e respeitando os legítimos mas falíveis conceitos de salad bowl ou melting pot, os EUA representam o sucesso e a grandeza do “novo mundo”. Um Éden de esperança em que todas as diferenças se esbatem num modelo plural que ninguém se atreve a qualificar ou classificar. Um Modelo que os leva a todos a defender a sua bandeira e o seu hino. Em síntese, um mosaico cultural numa sala vertiginosa de janelas abertas ao Mundo que materializa a ideologia nacionalista de um mantra europeísta.
É curioso no entanto, repararmos nas mais ressaltivas orientações sociais e nacionais, de cada um dos lados do Atlântico, pois desde sempre compreendi a América como um grupo de Estados Unidos a concorrer frente a Estados Isolados. Estados compostos por gente diferente de tradições singulares, unidos por um Sistema Político aglutinador, mas que ao fim e ao cabo, não passa disso. As características diferentes e distantes inter pares, permanecem sem se tornarem residuais.
Do outro lado da barricada, os meus botões me dizem, que a grande ambiguidade Europeísta do novo século reside no contra-senso em se tornarem a profecia dos Estados Unidos da Europa por fragmentos nacionalistas cujas sucessivas divisões étnicas, religiosas ou mesmo politiqueiras, estruturaram o “Velho Continente” num demorado e impaciente “puzzle” geográfico. O Kosovo é só mais um exemplo do que menciono, parecendo-nos unidos perante o Mundo numa efervescência separatista de dimensão empírica criteriosa.
Por terras de “Tio Sam” isto não se verifica por uma razão muito simples: sempre conviveram com esta “filosofia de alteridade” desde o seu germinar até à candidatura presidencial de um Afro-americano. E encaram-na como uma realidade permanente e irreversível.
Ao condensar o que de melhor e pior nós temos, os norte-americanos esboçam, da mesma forma, as atribulações e implosões sociais que vão ocorrendo nos lugares-comuns de cada canto do planeta. Como se fossem espelhos disformes de todos os outros.
A possível eleição democrata apelará a isso e ditará os destinos da América no que toca ao terrorismo a à radicalização do gosto. E vem pôr término à proselitista e demagógica teoria de que “quem não gosta de Bush, não gosta da América”. Como se não houvessem razões de propriedade moral e intelectual a apontar a tão triste e evangélica figura.
Para que a normalidade se reinstale, basta que se apele ao Humanismo e á Tolerância. Que é Europeia de certidão, e Americana de testemunho.
Filme: “A morte do Sr. Lazarescu”![]()
Título Original: “Moartea domnului Lazarescu” (2005)
Realização: Cristi Puiu
Argumento: Cristi Puiu & Razvan Radulescu
Actores: Ion Fiscuteanu – Mr. Lazarescu
Luminita Gheorghiu – Mioara Avram
Gabriel Spahiu – Leo
Doru Ana – Sandu Sterian
Um cheirinho do Leste, numa comédia melodramática irrepreensivelmente bem feita que mostra um retrato realista dos dias de hoje confirmado pela teoria dos irmãos Cohen de que “Este país não é para velhos”. Inserindo-se na velha escola europeia de cinema de autor, Cristi Puiu oferece-nos de bandeja a crueldade e indeferença psicoafectiva das sociedades modernas de uma forma simples mas nem por isso agradável. A não perder. Está em cartaz, na segunda, dia 10 de Março no pequeno auditório do Teatro de Vila Real, na rubrica “Cinema sem pipocas”.
Não que as ditas revistas masculinas suscitem grande interesse e relevância à linha editorial aqui do blogue (mesmo considerando as horríveis análises de actualidade da “Maxmen”) agora, o que me fez publicar em seu nome foi este incompreensível e anedótica declaração de João Godinho director da revista FHM, justificando o não pagamento das respectivas “posers” mensais da revista:

Belas referências numa “dança a dois”, porque a FHM não utiliza as suas mulheres como “objectos” mas sim como “produtos” onde tudo se vende menos a hedónica honra e respeitinho intrépido que bem são precisas numa época em que se “desvirtua os valores” de revistas masculinas. Sim, valores que são equitativos tanto para A FHM como para a Playboy. Soa-me é a falso pudor, mas isso sou eu que não percebo nada disto e além do mais não conheço as regras do”jogo”, nesta “dança” da decadência entre um figurão público analfabeto e uma revista que baseia a sua existência em trocos perdidos na algibeira por um belo par de “mamas”.
Vide: Uma palhaçada das antigas.
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