Pergunte-se que visão toponímica da Portugalidade premente – ou a bom rigor, da capital – terá um nosso emigrante em nova Iorque que partiu como músico e voltou como cinéfilo? Que a usa a seu bel-prazer como pano de fundo do seu caldo de cultura e lhe dá uma muy característica representatividade nocturna ao desembargar uma série de estórias que conjuntas compõem o seu mais recente filme?
Apresento-vos Bruno de Almeida e a sua mais recente obra “The Lovebirds” um testemunho de resistência ao cinema de grande escala (vulgo, Blockbusters) cointerpretada por amizades de datas americanas (Michael Imperioli e John Ventimiglia de “Os Sopranos” e Drena de Niro, filha do dito cujo) e corealizada pela nova proposta de filmagem digital que o jovem cineasta imprime activamente fruto do voluntarismo, deleite e interacção que pautam estas seis histórias que se cruzam e descruzam, roubando protagonismo anacronicamente e golpeando a alma no silêncio gritante de um palco intemporal e inspirador.
É nesta colecção de vinhetas que a liberdade criativa e os focos de intensidade se redistribuem ao abrigo do livre arbítrio do autor. Incorporado, também, pelas participações sui generis de Joe Berardo (como produtor de cinema), Fernando Lopes (decano do cinema de expressão portuguesa) e dos actores “tugas” Rogério Samora, Joaquim de Almeida e Ana Padrão esta longa-metragem tem o condão de estampar as várias “realidades” do autor em momentos simbólicos do (dito) cinema europeu, “diálogos emocionais” que percorrem idiossincrasias pós-modernas expressas na própria imagem descritiva dos actores e nas sátiras mordazes que vagueiam o filme na Lisboa que anoitece.
“The Lovebirds” é um filme descomprometido, de amigos. Que progressivamente se consome pela câmara do realizador. E por essa razão exige muito mais da crítica e do espectador na sua contemplação do que ao seu próprio feitor. Podemos considerá-lo amador e displicente ou um corajoso sopro de resiliência perante a subsidiodependência vigente e padronização de costumes. Não existe é retorno possível atendendo à verdadeira natureza do filme. É um filme distante que cativa e prende a atenção por lugares e cenas comuns e que se liberta pelo interior da cidade conjugando enquadramentos e filmagens espontâneas, elípticas e egoístas.
Destaque para a confissão quase homoautoral de Fernando Lopes no seu monólogo dentro do “ringue” e para as cenas alegóricas de descoberta de um “novo mundo” personificadas na cumplicidade entre Imperioli e Ana Padrão.
“The Collection” já tinha sido assim, vindo da excêntrica Nova Iorque e pronto para “recomeçar” Bruno de almeida liberta-se de homenagens missionárias (“The Art of Amália”, 2000), de paródias anárquicas (“O Candidato Vieira”, 2004) e abraça o embrião solitário do “indie digital” versão high tech de um artesanal e autosuficiente John Cassavetes do séc. XXI.
The Lovebirds é pela modéstia e improviso a espinha dorsal e o apêndice do olhar de um português para Portugal, lapidada por uma forma tão rara de fazer as coisas: independência.
Archive for Março, 2008
A MORTE ESTÁ EM CENA.
“O Homem, de entre todos os seres vivos, parece ser o único a ter consciência da inevitabilidade da sua própria morte . Esta consciência aparenta ser tão antiga quanto a sua própria existência. O Homem é filho do tempo e toda a sua subsistência é patenteada entre dois pontos, ambos misteriosos - o nascimento e a morte.”, assim se introduz o delicado mas profundo tema da morte, desafio que o Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real (MANVR) levou a cabo nas suas galerias dedicadas às exposições temporárias e que partilha o espaço com as restantes exposições de moedas arcaicas e peças antigas.
De facto, desde a Pré-história até aos dias de hoje, o Homem sempre nutriu uma relação especial com o culminar da vida que transparece na própria religião, nos rituais, medos e presságios. O paganismo, o Politeísmo, a viagem pelos dois mundos serviu, em tempos idos, como justificação para cremações, embalsamentos e demais ritos e cerimónias tentando explicar às comunidades de outrora, os fundamentos de tudo aquilo que os ultrapassava racionalmente.
Podemos observar no Museu vários fragmentos de objectos que supostamente pertenciam aos falecidos, sepulturas, aras, epígrafes e ao mesmo tempo perceber melhor as superstições e práticas devotas que os antigos adoptavam como suas e que lhes facilitava o sentido desse estado simbólico e misterioso que é o fim da existência. Com um enfoque mais varido para a recolha selctiva de peças Romanas e Celtas - fruto do exponencial arqueológico riquíssimo na região - a exposição apresenta-nos uma sequência cronológica das partes integrantes auxiliado por textos de orientação, pecando apenas pela escassez de recursos e peças de valor.
Esta exposição intitulada, ” A Morte: Ritos e Artefactos” foi inaugurada nas galerias secundárias do MANVR e irá estar em cena até dia 30 de Abril contando com guias para grupos de visitantes bem como suportes de audiovisual e material para os mais novos.
As entradas são gratuitas podendo deslocar-se a pé ou de carro ao Museu, localizado na Rua do Rossio logo atrás da rua direita da cidade. pecando apenas pela escassez de conteúdo á vista.
Uma retrospectiva daquilo que foi a evolução antropológica e sua relação com o momento fúnebre.
“Kingdom” - Dave Gahan
Can you feel me coming?
Open the door, it’s only me
I have that desperate feeling
And trouble is were I’m going to be
I know you hear me knocking
So open the door and set me free
If there’s a kingdom beyond it all
Is there a God that loves us all
Do we believe in love at all?
I’m still pretending I’m not a fool
So in your infinite wisdom
You show me how this life should be
All your love and glory
Doesn’t mean that much to me
If there’s a kingdom beyond it all
Is there a God that loves us all
Do we believe in love at all?
I’m still pretending I’m not a fool
Será mesmo ?
Preparam-se para encarar um “Portugal” que não veêm em jornais, blogues, nem nos mais pessimistas comentários. Esta é uma visão realista, de sucesso, de um país sem mediatismo nem reconhecimento. Admito que na primeira vez que o li, senti-me desconfortável tal era o distanciamento com o país apreendido que nos esbanjam pela casa adentro. Afogado por este “Portugalinho” falhado que serve para alimentar o ego de muita gente e vender jornais. Afinal, depois de ler isto, o caro leitor concluirá que na maioria dos casos só nos deixam ver aquilo que nos desanima e nos envergonha - o Portugal na lama. Porque esta mentalidade autofágica e mutiladora, adicta de crenças e opiniões acéfalas é o reflexo da lavagem cerebral que não nos deixa enxergar «o caminho» e «a missão».
Convosco fica o Portugal de Nicolau Santos, director-adjunto do EXPRESSO:
Poeta castrado, não!
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
by José Carlos Ary dos Santos
Aditamentos.
Porque uma (ou mais) imagem vale mais do que mil palavras e porque certos veredictos de tão óbvios, revistados e rebarbados que estão só com um trago de humor é que se engolem :
Ainda sobre o caso da polémica no “ringue” da Carolina Michaelis aqui ficam algumas teorizações de recepção, ao nível do contexto social de cada texto. Associem-se à vossa preferida ou pelo contrário argumentem com as vossas próprias linhas e marquem-nas aqui na caixa de comentários. Serão bem vindos:
Já pela minha caseira e aconchegante “cidade académica”, o Comunicamos continua de pedra e cal a actualizar o seu corpo noticioso com espírito de missão; o informativo online, tiradas uma férias forçadas da sua equipa de trabalho dedica-se agora a reviews de discos, filmes e livros; o Hugo encetada a sua aventura pela blogosfera dedica-se a exorcisar os seus anjos negros e a exprimir a sua verdadeira identidade enquanto o Nuno verbaliza e desconstrói o meio que o rodeia dissertando sobre valores suprafísicos.
Boa sorte para todos.
Virtuosismo Africano.
Toumani Diabaté
The Mandé Variations
Ed. World Circuit; Distr. Megamúsica
Depois de 19 anos de colaborações com artistas do calibre de Ali Farka Touré, Ry Cooder ou Taj Hahal e intensos concertos com a sua Symmetric Orchestra, “The Mandé Variations” vem suprir o hiato imposto pelo primeiro álbum de originais e a solo (“Kairo”), deste génio Maliano com o seu objecto de estimação, a exótica Kora.
Habituado a tocar desde os 5 anos por influência do pai este peculiar instrumento aparentemente agraciado pelos Deuses, Toumani Diabaté transcende-se mais uma vez e apresenta-nos, na linha do que foi o seu disco de apresentação, oito faixas emanadas do rico e particular imaginário tradicional Africano, do seu cancioneiro e da potência em bruto que irradia este primado musical.
Oito faixas indistinguíveis que perfazem uma longa e deleitosa melodia rasgada por improvisos repentinos e uma base rítmica de baixo – com referências ao tribalismo e a algo que poderíamos chamar, passe o paralelismo cinematográfico, de «música de autor».
E Toumani é exímio a tocá-lo. A bem da verdade, a profundidade que assola esta quase uma hora de audição toma contornos metafísicos e de extrema sensibilidade na exegese sonora de cada um. Há algo de inexplicavelmente belo nesta música que nos transporta, por paisagens etéreas e ao colo de um purismo artístico tipicamente rústico, ao mais essencial testemunho de vitalidade artística Africana.
Um conjunto de músicas que respira folklore local mas que serve também como extensão do indivíduo perante o objecto. Não será exagerado dizer que os dois fundem-se, tal é o perfeccionismo e a tranquilidade do executante e do executado.
Imprescindível para quem quiser (re)descobrir o estado mais puro da espiritualidade musical. Recomendado para qualquer hedonista e libertário errante à mercê da World Music actual.
Resumindo: algo que toda a gente deveria escutar pelo menos uma vez na vida descomprometidamente e em nome da arte pela arte.
1 Si naani 10:28
2 Elyne Road 8:48
3 Ali Farka Toure 6:18
4 Kaouding Cissoko 6:25
5 Ismael Drame 5:44
6 Djourou Kara Nany 6:51
7 El Nabiyouna 6:02
8 Cantelowes 6:56
Numa encruzilhada entre a herança histórica maoísta e a exploração económica do seu capitalismo selvagem. Assim se vê no novo milénio a mais poderosa potência crescente do Globo. Um híbrido implacável pairando entre a rigidez interna dos seus concidadãos e o desrespeito pelas medidas ambientais consagradas em Quioto. O condicionamento dum direito para nós tão banalizado como a liberdade e o liberalismo económico ocidental coadjuvado pelo favorecimento fiscal de imigrantes e a antítese na protecção laboral da sua população. Por outras palavras, a China está se bem marimbando para a ética ocidental e para purismos ideológicos e filosofias budistas. Modernizaram o seu comunismo encapuçando-o de corrector de bolsa. Descobriram a fórmula do sucesso e não pretendem abdicar dela. Nem que para isso seja preciso abalroar um tesouro cultural milenar, património mundial perdido nas largas encostas e cadeias montanhosas Tibetanas. Vem isto a propósito de mais um caso de convulsões socias e do tema que está nas bocas do Mundo.
Quis o Comité Olímpico Internacional (COI), que Beijing (Pequim) fosse a cidade escolhida para acolher os Jogos Olímpicos deste ano. Como já não bastavam os protestos de alguns atletas perante o smog que envolve a cidade com sérios riscos para as performances nas modalidades da maratona e marcha, tinha de vir esta polémica para arruinar as suas pretensões de elegante anfitrião de baile de gala. Como sempre, as fraquezas descobrem-se debaixo dos lençóis e esta maçada veio à tona sob a discutível legitimidade Chinesa em cumprir o que estava prometido. Este vosso escriba como não tem tento na língua nem pretende prestar contas a blocos de interesse e a partidos (passe a redundância) acusa o Partido Comunista Chinês de genocídio cultural e repressão por uso de força de uma região soberana e com as valências necessárias para se desvincular de qualquer agregação imperial. Não nos esquecemos que esse império infindável que é a República Popular da China teve a sua génese numa confederação de povos, uns subjugados a outros numa galopante conquista de base.
Posto isto a verdade é que se tentou por este mundo social, democrata, rico e tolerante desvalorizar e, em alturas várias, desvirtuar tais factos. O COI nem sequer ponderou a interrupção dos trabalhos. A ONU safou-se de mansinho e sacudiu a chuva para outra capota. Os EUA… bem os States têm mais é do que se preocupar com isto. Até o Comité Olímpico Português já veio mostrar a sua concordância com a gerência. É claro que o princípio da passividade das Nações e Estados Unidos assenta que nem uma luva para não acordar o monstro adormecido. Para quê, preocuparem-se com ninharias? Para quê, reclamarem os nobres ideais Olímpicos? No final, tudo será uma reedição do que se passou anteriormente. Ou seja, nada de alarmes, nada de boicotes. Algumas almas podem pagar o custo dos flashes e correrias com a tocha acesa.
A propósito, Francisco josé Viegas:
“O capitalismo perdoa aos chineses todas as perversões cometidas, em nome do mercado; alguma esquerda perdoa à China todos os desvios em nome de um realismo incalculável. Os Jogos Olímpicos, até agora, têm sido cenário de grandes cedências e de grandes hipocrisias – mas nenhuma ultrapassa as de Pequim.”
Publicado, no Informativo, 24/03/08.
“Shadowplay” - Joy Division

To the centre of the city where all roads meet, waiting for you,
To the depths of the ocean where all hopes sank, searching for you,
I was moving through the silence without motion, waiting for you
In a room with a window in the corner, I found truth
In the shadowplay, acting out your own death, knowing no more
As the assassins all grouped in four lines, dancing on the floor,
And with cold steel, odour on their bodies, made a move to connect
But I could only stare in disbelief as the crowds all left
I did everything, everything I wanted to,
I let them use you, for their own ends,
To the centre of the city in the night, waiting for you,
To the centre of the city in the night, waiting for you.
by Ian Curtis
Atmosferas insulares.
“Five Thousand more” - Clann Zú
Porque existe uma alternativa à pandomina trauliteira das MTV’s, rádio comerciais e tops discográficos. Quando o verdadeiro sentido do gosto e do deleite se vale da sensibilidade perdurante ao arrepio da imediatez. Pela perfeita sintonia entre som, cor, geometria e sinergias. Porque quem realmente gosta, corre atrás. Porque a beleza suprema reside no detalhe e na impressão. Já que ouvir música ou se preferirem degustar uma canção, não é suposto ser uma coisa fácil.
Boa Noite.
Comentários Recentes